terça-feira, 10 de janeiro de 2012

LINGUA BRASILEIRA DE SINAIS I

Universidade Federal de Santa Catarina
Licenciatura e Bacharelado em Letras-Libras na Modalidade a Distância
Ronice Muller de Quadros
Aline Lemos Pizzio
Patrícia Luiza Ferreira Rezende
Língua Brasileira de
Sinais I
Florianópolis
2009
LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS I
1. ORGANIZAÇÃO CEREBRAL NO USO DA LINGUAGEM
Textos obrigatórios para a análise deste conteúdo:
RODRIGUES, N. Organização neural da linguagem. Em Língua de sinais e educação
do surdo. Eds. Moura,M. C.; LODI, a. C. e PEREIRA, M. C. Sociedade Brasileira
de Neuropsicologia. SBNp. São Paulo. 1993.
EMMOREY, K.; BELLUGI, U. & KLIMA, E. Organização neural da língua de sinais.
Em Língua de sinais e educação do surdo. Eds. Moura,M. C.; LODI, a. C. e
PEREIRA, M. C. Sociedade Brasileira de Neuropsicologia. SBNp. São Paulo. 1993.
Segundo BELLUGI et. al. (1989), estudos sobre a organização cerebral indicam
que o hemisfério esquerdo é o responsável pelo processamento de informações
lingüísticas no modo auditivo-oral e que esta capacidade de analisar os sons é
determinante para este hemisfério ser o responsável pela linguagem. Já o hemisfério
direito é o responsável pelo processamento visual-espacial. Com base no exposto acima,
é possível questionarmos se o hemisfério esquerdo é restrito para a língua falada ou se é
a base de uma representação abstrata da forma lingüística, independente da modalidade.
Além disso, as mudanças que a experiência lingüística causa na percepção dos sons e
dos movimentos sugere que o uso da linguagem deve provocar grandes efeitos na
organização cerebral, inclusive que esta deve ser diferente para as línguas de sinais e
para as línguas faladas. Então, a pergunta que se faz é: Qual a relação existente entre os
hemisférios cerebrais e a língua de sinais?
Uma das formas de se aprofundar as especificidades de cada hemisfério é
através do estudo dos distúrbios da linguagem causados por lesão no cérebro, devido a
um AVC (acidente vascular cerebral) ou a um trauma. Os danos causados no hemisfério
esquerdo podem gerar transtornos na linguagem oral (afasia), enquanto os danos
causados no hemisfério direito normalmente não têm efeito sobre o uso da linguagem,
mas causam dificuldades na percepção espacial, sugerindo então que esta seja uma
especificidade deste hemisfério.
Sendo assim, a pergunta que se faz, conforme visto anteriormente, é se o
hemisfério esquerdo é responsável apenas pelas línguas faladas ou, ao contrário, é a
base de uma representação mais abstrata da forma lingüística, independentemente da
modalidade em que a linguagem é transmitida. Para respondê-la, BELLUGI et. al.
(1989) resolvem investigar na ASL como as funções dos dois hemisférios são
organizadas em sinalizantes surdos. Já que o hemisfério esquerdo em ouvintes é
responsável pela função lingüística e o direito pelas funções visual-espaciais, é esperado
que nas línguas de sinais haja uma combinação de ambos os hemisférios para uso destas
capacidades.
Desta forma, os pesquisadores desenvolveram um conjunto de provas
experimentais para investigar a capacidade visual-espacial bem como níveis específicos
de processamento lingüístico para as línguas de sinais. Com isso, eles pretendiam
determinar se um usuário da ASL com lesão cerebral e dificuldades em sinalizar
apresenta tais dificuldades devido a um problema lingüístico, ao uso de símbolos ou ao
controle de movimentos. Para este estudo, foram utilizados sinalizantes surdos que
apresentavam lesão no hemisfério esquerdo e outros com lesão no hemisfério direito do
cérebro.
Os resultados encontrados foram muito interessantes. Os pacientes surdos com
lesão no hemisfério direito, mesmo com uma lesão extensa, não apresentaram
deterioração no seu uso de língua de sinais. Eles se mostraram fluentes, com gramática
estruturada e raros erros de sinalização. Entretanto, apesar da linguagem preservada,
eles mostraram déficits no processamento de relações espaciais não-lingüísticas (como
descrever a organização dos objetos em um aposento). Desta forma, o hemisfério direito
não é responsável pela língua de sinais, apesar de ser responsável pelas relações visualespaciais.
O que se percebe é que a representação mental para relações espaciais entre
objetos reais é diferente daquela organização espacial para conceitos gramaticais
abstratos.
Em contrapartida, os pacientes surdos com lesão no hemisfério esquerdo
apresentaram um bom desempenho nos testes de percepção espacial, mas demonstraram
sua língua de sinais amplamente afetada, com efeitos parecidos com aqueles
encontrados em ouvintes afásicos. Um fato que chamou a atenção foram as diferenças
de padrão nos déficits lingüísticos destes pacientes. Um deles mostrou agramatismo,
não utilizando os sinais adequados, não usando flexões gramaticais nem uma ordem
sintática coerente. Outros dois pacientes, aparentemente, mostraram fluência na
produção, mas com diferentes prejuízos. Um deles usava estrutura coerente, mas
apresentava erros na configuração de mão (como o equivalente a troca de sons na fala),
além de não especificar os referentes no discurso e apresentar problemas de
compreensão. O outro paciente apresentava muitos erros gramaticais, de flexão e de uso
do espaço. Estes dados mostram que lesões no hemisfério esquerdo não causam danos
uniformes na língua de sinais: danos em diferentes regiões afetam diferentes
componentes lingüísticos.
Desta forma, estes achados sugerem que o hemisfério cerebral esquerdo é
dominante para a língua de sinais, assim como também o é para as línguas faladas. A
organização do cérebro para a linguagem não parece ser afetada, particularmente, pela
maneira como a linguagem é percebida e produzida.
Apesar desta dicotomia cerebral, onde o hemisfério esquerdo concentra as
habilidades verbais e o hemisfério direito as visual-espaciais, esta separação é apenas
uma simplificação do que realmente ocorre. Segundo HICKOK et. al. (2002), pesquisas
mais recente apontam que a maioria das habilidades cognitivas pode ser dividida em
múltiplos processos. Em alguns níveis, a atividade cerebral pode ser lateralizada
(acontecendo em um hemisfério), enquanto em outras a atividade é bilateral (ocorrendo
nos dois hemisférios).
A habilidade da linguagem, por exemplo, tem vários componentes (fonológicos,
morfológicos, sintáticos, entoacionais, discursivos). De todos os aspectos da habilidade
lingüística, a produção da linguagem é uma das mais restritas ao hemisfério esquerdo.
Danos neste hemisfério freqüentemente interferem na habilidade de selecionar e reunir
sons e palavras apropriados na fala; entretanto, danos no hemisfério direito raramente
interferem nestes aspectos. Uma exceção no domínio do hemisfério esquerdo para
produção da linguagem é a criação de um discurso coerente. Pacientes com lesão no
hemisfério direito apresentam boa estrutura gramatical, mas freqüentemente divagam de
um assunto a outro, perdendo a conexão entre os tópicos. Assim, a percepção e a
compreensão da linguagem parecem estar menos restritas ao hemisfério esquerdo do
que a produção.
As habilidades espaciais não-lingüísticas também podem ser divididas em vários
componentes, com diferentes padrões de lateralização. As pesquisas mostram que o
hemisfério esquerdo é importante para o nível local de percepção espacial, enquanto que
o direito é importante para processos de nível global. Com isso, os pesquisadores fazem
a seguinte pergunta: a divisão das habilidades visual-espaciais entre os dois hemisférios
está relacionada à divisão das habilidades das línguas de sinais? Sinais individuais e
sentenças sinalizadas podem ser pensados como partes da linguagem, enquanto que um
discurso extenso pode representar como estas partes são conectadas. Talvez o
hemisfério esquerdo seja dominante para produção e compreensão de sinais e sentenças
sinalizadas porque estes processos são dependentes de habilidades espaciais de nível
local. E talvez o hemisfério direito seja dominante para o estabelecimento e manutenção
de um discurso coerente em língua de sinais porque estes processos são dependentes de
habilidades espaciais de nível global.
Os autores, então, resolveram testar sua hipótese e a pesquisa confirmou que
muitos surdos com lesão no hemisfério direito tinham problemas com discursos longos
e outros tinham problemas em manter os referentes dos personagens de suas narrativas
no espaço definido para eles. Entretanto, os sistemas cognitivos no hemisfério esquerdo
que sustentam as habilidades espaciais não-lingüísticas são diferentes daquelas que
sustentam discursos extensos. Ao contrário das expectativas, as habilidades em língua
de sinais de sinalizantes surdos parecem ser independentes de suas habilidades espaciais
não-lingüísticas.
Os resultados desta pesquisa sugerem, também, que a compreensão em línguas
de sinais pode ser mais bilateralmente organizada do que a compreensão em línguas
faladas. Entretanto, a atividade bilateral também foi encontrada em estudos com
ouvintes escutando uma língua falada. Para finalizar, é possível se dizer que estudos de
lesões cerebrais mostram claramente que se existem diferenças entre línguas de sinais e
línguas faladas, elas provavelmente são sutis e específicas da linguagem.
1.1 A questão do movimento nas línguas de sinais
Enquanto as pesquisas de aquisição de língua de sinais por crianças surdas
revelam que as características fundamentais desta língua visual-espacial independem da
modalidade, não podemos deixar de lado o fato de que, apesar disto, há uma diferença
entre línguas faladas e sinalizadas e que o padrão auditivo e o padrão visual entram no
cérebro por canais separados. Assim, POIZER e BELLUGI (1989) fazem a seguinte
pergunta: como, então, estes dois canais aparentemente diferentes para analisar padrões
sensoriais sustentam um sistema lingüístico comum? Para tentar encontrar uma
resposta, eles decidiram estudar as diferenças entre a maneira como sinalizantes e nãosinalizantes
percebiam movimento.
A hipótese dos pesquisadores era de que as experiências de uma língua visualespacial
podiam modificar a percepção dos elementos da linguagem da mesma maneira
que a experiência em uma língua falada modifica a percepção destes elementos. Para
isso, o primeiro passo foi isolar os movimentos dos sinais através de uma adaptação da
técnica desenvolvida para estudar como as pessoas percebiam movimentos do corpo
humano. Assim, eles colocaram nove pontos de luz (um na cabeça, um em cada ombro,
cotovelo, punho e ponta do dedo indicador) no corpo de um sinalizante vestido todo de
preto, fazendo movimentos em uma sala escura, para que fosse possível para
sinalizantes nativos identificar o caráter lingüístico dos movimentos feitos por outro
sinalizante. Com este sistema, seria possível estudar questões básicas sobre a relação
entre percepção de movimento e processamento de informação lingüística. Isto porque o
caráter espacial das línguas de sinais adiciona características à ASL, que possibilitam a
aplicação de vários processos gramaticais simultaneamente, através de movimentos.
Assim, os autores iniciaram sua busca por modificações perceptuais associadas à
experiência com a língua de sinais, utilizando o sistema com pontos de luz em
indivíduos ouvintes que não conheciam língua de sinais e com indivíduos surdos
sinalizantes desde a infância. Com esta técnica, apenas os pontos de luz eram visíveis.
Informações sobre configuração de mão, expressão facial ou outra informação visual
não eram percebidas. Os sujeitos viam os movimentos em grupos de três e deveriam
identificar os dois movimentos que fossem mais similares. Os pesquisadores, então,
aplicavam uma análise matemática complexa aos resultados que os fizessem identificar
certas características dos movimentos, as quais deveriam ser utilizadas pelos indivíduos,
tanto surdos como ouvintes, para distingui-los. Dentre estas características estão: a
direção, a extensão, a repetição e o plano dos movimentos.
Após a análise dos resultados, foram encontradas muitas diferenças entre surdos
e ouvintes no que se refere às características dos movimentos utilizados na avaliação de
similaridade realizada por eles. Entretanto, a maior diferença estava no padrão global
das características dos movimentos que os dois grupos de indivíduos acharam
importantes ao fazerem suas avaliações. As características dos movimentos que se
destacaram para os sujeitos ouvintes refletem uma predisposição natural para olhar os
movimentos humanos, enquanto aquelas que se destacaram para os usuários da ASL
representam um conjunto de efeitos desta predisposição e da experiência lingüística.
As alterações perceptuais, então, parecem ser a conseqüência usual de aquisição
de um sistema lingüístico formal, independentemente do modo de sua transmissão. Os
resultados encontrados pelos autores confirmam a hipótese por eles levantada: de que a
experiência modifica a percepção dos elementos da linguagem de acordo com a
modalidade.
1.2 As expressões faciais nas línguas de sinais
Para os usuários de línguas de sinais, as expressões faciais têm duas funções
distintas: expressar emoções (assim como nas línguas faladas) e marcar estruturas
gramaticais específicas (como orações relativas), servindo para distinguir funções
lingüísticas, uma característica única das línguas de modalidade visual-espacial.
A existência de duas classes diferentes de funções de expressão facial levanta
questionamentos acerca do controle neural da linguagem e de funções não-lingüísticas.
A observação de padrões neurais de expressões faciais para diferentes funções,
lingüística e afetiva, fornece uma perspectiva de determinantes para a especialização
dos hemisférios cerebrais.
As marcas lingüísticas e afetivas das expressões faciais se diferem na ASL de
várias maneiras. Existem pelo menos quatro distinções essenciais entre esses dois tipos
de expressão facial que marcam o uso diferente de uma mesma musculatura facial. São
elas:
(a) rápido início e compensação da ativação do músculo: as expressões faciais afetivas
são inconstantes e inconsistentes nos seus padrões de início e de compensação. Em
oposição, as expressões faciais lingüísticas na ASL são claras, rápidas e específicas em
seus padrões;
(b) músculos faciais individualizados: as expressões afetivas são globais e fazem uso de
um conjunto de músculos faciais, enquanto as expressões faciais gramaticais podem
escolher músculos faciais individuais que nunca são individualizados numa expressão
normal de emoção;
(c) escopo lingüístico: expressões afetivas podem ocorrer tanto antes como depois de
uma produção lingüística e não estão necessariamente associadas a um evento
lingüístico específico. Já as expressões faciais gramaticais estão intimamente ligadas
aos sinais manuais. O escopo da expressão lingüística facial demarca fronteiras
gramaticais pontuais.
(d) obrigatoriedade: as marcas lingüísticas faciais para a função específica a que
pertencem (orações relativas ou condicionais, por exemplo) são requeridas na ASL,
enquanto que a marca manual é opcional.
Sendo assim, o comportamento facial lingüístico na ASL constitui um conjunto
limitado de comportamentos categóricos ou discretos no qual componentes, escopo e
forma são regras governadas e impostas pelos requisitos do sistema lingüístico. Já os
comportamentos faciais afetivos são contínuos, mostrando larga variação ao longo de
todos estes parâmetros.
Serão relatados a seguir, os resultados de dois estudos sobre a produção de
expressões faciais em indivíduos surdos. No primeiro estudo, o interesse dos
pesquisadores era verificar se sinalizantes surdos mostravam assimetrias expressivas
similares em ambas as expressões faciais (lingüísticas e afetivas). Assim, avaliadores
ouvintes, sem familiaridade com língua de sinais, julgaram a expressividade e
intensidade dos dois tipos de expressões faciais através de composição de fotos de
sinalizantes exibindo tais expressões. No segundo estudo, foi examinada a produção de
expressões faciais em sinalizantes surdos lesionados cerebrais, tanto do hemisfério
esquerdo como do direito, para especificar os padrões das funções danificadas.
Em conjunto, estes estudos fornecem evidências de um controle hemisférico
diferente para a produção de expressões faciais em sinalizantes da ASL. Assim, os
dados indicam que para sinalizantes surdos as expressões faciais afetivas parecem ser
primariamente mediadas pelo hemisfério direito, enquanto as expressões faciais
lingüísticas envolvem a mediação do hemisfério esquerdo. Isto representa um resultado
importante, já que um único sistema muscular está envolvido em dois tipos
funcionalmente distintos de expressões faciais. Para as pessoas ouvintes, o hemisfério
direito parece ser o predominante para expressões faciais, mas para indivíduos surdos, a
especialização dos hemisférios é influenciada pelos propósitos a que servem os sinais.
2. LÍNGUA DE SINAIS É LÍNGUA
Texto obrigatório para a análise deste conteúdo:
QUADROS, R. M. de & KARNOPP, L. Língua de sinais brasileira: estudos
lingüísticos. ArtMed. Porto Alegre. 2004 – Capítulo 1
Quadros e Karnopp (2004:29-30) apresentam alguns autores que, depois de
Stokoe, reconheceram a língua de sinais no contexto das investigações lingüísticas,
conforme segue no quadro abaixo:
Hoje há uma quantidade razoável de investigações na área da lingüística, não apenas sobre a
estrutura, mas também sobre a aquisição, o uso e o funcionamento dessas línguas. Ao
discutir sobre a interface “articulatório-perceptual”, Chomsky (1995) reconhece tais
investigações:
A concepção de que a articulação e a percepção envolvem a mesma interface
(representação fonética) é controversa, os problemas obscuros relacionados à
interface C-I (conceptual-intencional) é ainda mais. O termo “articulatório” é tão
restrito que sugere que a faculdade da linguagem apresenta uma modalidade
específica, com uma relação especial aos órgãos vocais. O trabalho nos últimos
anos em língua de sinais evidencia que essa concepção é muito restrita. Eu
continuarei a usar o termo, mas sem quaisquer implicações sobre a especificidade
do sistema de output, mantendo o caso das línguas faladas. (Chomsky, 1995:434,
nota de rodapé 41)
Além disso, Saussure, citando Whitney, discute a questão articulatório-perceptual quando
refere:
(…) para Whitney, que considera a língua uma instituição social da mesma espécie
que todas as outras, é por acaso e por simples razões de comodidade que nos
servimos do aparelho vocal como instrumento da língua; os homens poderiam
também ter escolhido o gesto e empregar imagens visuais em lugar de imagens
acústicas. (Saussure, [1916] 1995, p. 17)
Mais adiante, Saussure coloca:
No ponto essencial, porém, o lingüista norte-americano nos parece ter razão: a
língua é uma convenção e a natureza do signo convencional é indiferente. A
questão do aparelho vocal se revela, pois, secundária no problema da linguagem.
(Saussure [1916] 1995, p. 18)
As línguas de sinais passam a integrar o contexto dos estudos lingüísticos. Ainda
destacamos as palavras de Ray Jackendoff, lingüista reconhecido nos estudos das
línguas no campo da sintaxe e da semântica:
A coisa mais importante que eu quero destacar é que ASL é uma língua. Claro, ela
parece ser completamente diferente de outras línguas já conhecidas como o inglês, o
russo e o japonês. Isso significa que a transmissão não é através do trato vocal
criando sinais acústicos que são detectados pelo interlocutor por meio da audição.
1 Tradução feita pelas autoras Quadros e Karnopp (2004).
Ao invés disso, os gestos do sinalizador criam sinais que são detectados pelo
interlocutor por meio do sistema visual. (…) O sistema periférico é diferente, mas a
atividade inerente é a mesma2.
(Jackendoff, 1994:83)
2.1 Propriedades das línguas e das línguas de sinais
Veja porque as línguas de sinais apresentam as propriedades das línguas humanas:
Propriedades das línguas humanas nas línguas de sinais
Flexibilidade e versatilidade
As línguas apresentam várias
possibilidades de uso em diferentes
contextos.
As línguas de sinais são usadas para pensar, são
usadas para desempenhar diferentes funções.
Você pode argumentar em sinais, pode fazer
poesia em sinais, pode simplesmente informar,
pode persuadir, pode dar ordens, fazer perguntas
em sinais.
Glosas em LIBRAS:
VOCÊ GOSTAR MAÇÃ.
VOCÊ <GOSTAR MAÇÃ>sn
IX CASA DEFEITO EU PRECISO ARRUMAR
< PROJETO >to AULA EU APRESENTAR
Arbitrariedade
A palavra (signo lingüístico) é
arbitrária porque é sempre uma
convenção reconhecida pelos falantes
de uma língua.
As línguas de sinais apresentam palavras em que
não há relação direta entre a forma e o
significado.
Glosas em LIBRAS:
CONHECER
AMIGO
TRABALHO
Descontinuidade
Diferenças mínimas entre as palavras e
os seus significados são
descontinuados por meio da
distribuição que apresentam nos
diferentes níveis lingüísticos.
Na língua de sinais verificamos o caráter
descontínuo da diferença formal entre a forma e
o significado. Há vários exemplos que ilustram
isso, por exemplo, o sinal de MORENO e de
SURDO são realizados na mesma locação, com a
mesma configuração de mão, mas com uma
pequena mudança no movimento, mesmo assim
nunca são confundidos ao serem produzidos em
um enunciado. Tais sinais apresentam uma
distribuição semântica que não permite a
confusão entre os significados apresentados
dentro de um determinado contexto.
Glosas em LIBRAS:
TRABALHO
VIDEO-CASSETE
TV
MORENO-SURDO
2 Tradução realizada por Ronice Muller de Quadros. ASL é a abreviatura da língua de sinais americana.
Criatividade/produtividade Você
pode dizer o que quiser e de muitas
formas uma determinada informação
seguindo um conjunto finito de regras.
A partir desse conjunto, você pode
produzir uma sentença infinita nas
línguas humanas.
As línguas de sinais são produtivas assim como
quaisquer outras línguas.
Glosas em LIBRAS:
EU AMAR GISELE PORQUE ELA BONITA,
LEGAL, ESPECIAL, 1AJUDAR2, GOSTAR
TRABALHAR, INTELIGENTE ....
Dupla articulação
As línguas humanas apresentam duas
articulações: a primeira é das unidades
menores sem significado e a segunda,
das unidades que combinadas formam
unidades com significado.
As línguas de sinais também apresentam o nível
da forma e o nível do significado. Por exemplo,
as configurações por si só não apresentam
significado, mas ao serem combinadas formam
sinais que significam alguma coisa.
Exemplos em LIBRAS:
CM sem significado
L sem significado
M sem significado
CM+L+M = significado (L+bochecha+semicírculo
para trás)
Padrão
As línguas têm um conjunto de regras
compartilhadas por um grupo de
pessoas.
As línguas de sinais são altamente restringidas
por regras. Você não pode produzir os sinais de
qualquer jeito ao usar a língua de sinais
brasileira, por exemplo. Você deve observar suas
regras.
Exemplo em LIBRAS:
Obedecer às regras de formação de sinais e de
sentenças.
(ajudar com CM S – mostrar exemplos de sinais
com CM errada, ou L errada, ou M errado)
Dependência estrutural
Há uma relação estrutural entre os
elementos da língua, ou seja, eles não
podem ser combinados de forma
aleatória.
Também é observada uma dependência estrutural
entre os termos produzidos nas línguas de sinais.
Glosas em LIBRAS:
PAULO TRABALHAR+asp
*TRABALHAR+asp PAULO
SINAL BRASIL
*BRASIL SINAL
2.2 Mitos em relação às línguas de sinais
Mito: Narrativa de significação simbólica, e que encerra uma verdade cuja
memória se perdeu no tempo. (AURÉLIO, 1993).
Várias pessoas acreditam em coisas que não necessariamente sejam verdadeiras.
Observamos nos discursos das pessoas que não conhecem os surdos e as línguas de
sinais que há uma série de crenças que não correspondem à realidade. As pessoas
pensam essas coisas sobre as línguas de sinais, porque por muitos anos houve idéias a
respeito que foram disseminadas por questões filosóficas, religiosas, políticas e
econômicas. Talvez você mesmo pense que essas coisas sejam verdadeiras. Não se sinta
culpado, pois isso é fruto do desconhecimento. Apesar do impacto dessas concepções,
as pesquisas avançaram muito e nos mostraram que tais concepções são equivocadas.
Estaremos, portanto, apresentando evidências para desmistificar tais idéias. Quadros e
Karnopp (2004:31-37) organizaram uma lista de mitos apresentados a seguir:
MITOS DESMISTIFICAÇÃO
1 – A língua de sinais seria uma mistura de
pantomima e gesticulação concreta,
incapaz de expressar conceitos abstratos.
Tal concepção está atrelada à idéia
filosófica de que o mundo das idéias é
abstrato e que o mundo dos gestos é
concreto. O equívoco desta concepção é
entender sinais como gestos. Na verdade,
os sinais são palavras, apesar de não serem
orais-auditivas. Os sinais são tão arbitrários
quanto às palavras. A produção gestual na
língua de sinais também acontece como
observado nas línguas faladas. A diferença
é que no caso dos sinais, os gestos também
são visuais-espaciais tornando as fronteiras
mais difíceis de serem estabelecidas. Os
sinais das línguas de sinais podem
expressar quaisquer idéias abstratas.
Podemos falar sobre as emoções, os
sentimentos, os conceitos em língua de
sinais, assim como nas línguas faladas.
2 – Haveria uma única e universal língua
de sinais usada por todas as pessoas
surdas.
Esta idéia está relacionada com o mito
anterior. Se as línguas de sinais são
consideradas gestuais, então elas são
universais. Isto é uma falácia, pois as várias
línguas de sinais que já foram estudadas são
diferentes umas das outras. Assim como as
línguas faladas, temos línguas de sinais que
pertencem a troncos diferentes. Temos pelo
menos dois troncos identificados, as línguas
de origem francesa e as línguas de origem
inglesa. Provavelmente, nossa língua de
sinais pertence ao tronco das línguas de
sinais que se originaram na língua de sinais
francesa.
3 – Haveria uma falha na organização Como as línguas de sinais são consideradas
gramatical da língua de sinais que seria
derivada das línguas de sinais, sendo um
pidgin sem estrutura própria, subordinado
e inferior às línguas orais.
gestuais, elas não poderiam apresentar a
mesma complexidade das línguas faladas.
Isso também não é verdadeiro, pois em
primeiro lugar as línguas de sinais são
línguas de fato. Em segundo lugar, as
línguas de sinais independem das línguas
faladas. Um exemplo que evidencia isso
claramente é que a língua de sinais
portuguesa é de origem inglesa e a língua
de sinais brasileira é de origem francesa,
mesmo sendo o português a língua falada
nos respectivos países, ou seja, Portugal e
Brasil. Como estas línguas de sinais
pertencem a troncos diferentes, elas são
muito diferentes uma da outra. É claro que
não podemos negar o fato de ambas as
línguas estarem em contato, principalmente
entre os surdos letrados. O que se observa
diante deste contato é que, assim como
observado entre línguas faladas em contato,
existem alguns empréstimos lingüísticos.
Para além disso, as línguas de sinais não
têm relação com as línguas faladas do seu
país. Elas são autônomas e apresentam o
mesmo estatuto lingüístico identificado nas
línguas faladas, ou seja, dispõem dos
mesmos níveis lingüísticos de análise e são
tão complexas quanto às línguas faladas.
4 – A língua de sinais seria um sistema de
comunicação superficial, com conteúdo
restrito, sendo estética, expressiva e
lingüisticamente inferior ao sistema de
comunicação oral.
Como as línguas de sinais são tão
complexas quanto às línguas faladas, esta
afirmação não procede. Nós já vimos que
as línguas de sinais podem ser utilizadas
para as inúmeras funções identificadas na
produção das línguas humanas. Você pode
usar a língua de sinais para produzir um
poema, uma estória, um conto, uma
informação, um argumento. Você pode
persuadir, criticar, aconselhar, entre tantas
outras possibilidades que se apresentam ao
se dispor de uma língua. Assim, a língua de
sinais não é inferior a nenhuma outra
língua, mas sim, tão lingüisticamente
reconhecida quanto qualquer outra língua.
5 – As línguas de sinais derivariam da
comunicação gestual espontânea dos
ouvintes.
A idéia de que a língua de sinais seja
gestual também reaparece neste mito. As
pessoas pensam que as línguas de sinais são
de fácil aquisição por estarem diretamente
relacionadas com o sistema gestual
utilizado por todas as pessoas que falam
uma língua. Como isso não é verdade, as
línguas de sinais são tão difíceis de serem
adquiridas quanto quaisquer outras línguas.
Precisamos de anos de dedicação para
aprendermos uma língua de sinais, mas
com base neste mito, as pessoas pensam
que sabem a língua de sinais por usarem
alguns gestos e alguns sinais que aprendem
nas aulas de língua de sinais. A
comunicação gestual usada exclusivamente
é extremamente limitada, pois torna
inviável a comunicação relacionada com
questões mais abstratas. Assim, você vai
precisar da língua de sinais para poder
comunicar estas idéias. É verdade que você
pode comunicar algumas coisas utilizando
apenas gestos, assim como você faz quando
chega a um país em que é falada uma
língua desconhecida por você. Mas,
também é verdade que você estará limitado
à identificação direta entre o gesto e sua
intenção, sem poder entrar em níveis de
detalhamento necessário para transcorrer
sobre um determinado assunto. Para
transcorrer sobre um determinado assunto
qualquer, você vai precisar de uma língua.
No caso da comunicação com surdos, você
vai precisar da língua de sinais.
6 – As línguas de sinais, por serem
organizadas espacialmente, estariam
representadas no hemisfério direito do
cérebro, uma vez que esse hemisfério é
responsável pelo processamento de
informação espacial, enquanto que o
esquerdo, pela linguagem.
As pesquisas com surdos apresentando
lesões em um dos hemisférios apresentam
evidências de que as línguas de sinais são
processadas lingüisticamente no hemisfério
esquerdo da mesma forma que as línguas
faladas. Existe sim uma diferença que está
relacionada com informações espaciais,
pois estas, além de serem processadas no
hemisfério esquerdo com suas informações
lingüísticas, são também processadas no
hemisfério direito quanto às suas
informações de ordem puramente espacial.
Assim, parece haver um processamento até
mais complexo do que o observado em
pessoas que usam línguas faladas. As
investigações concluem que a língua de
sinais é um sistema, que faz parte da
linguagem humana, processado no
hemisfério esquerdo e no hemisfério
direito.
Assim, como Quadros e Karnopp (2004:36-37) concluem esta análise dos mitos,
‘tais concepções equivocadas em relação às línguas de sinais compartilham traços
comuns, assinalando um estatuto lingüístico inferior em relação ao plano da superfície.
Todavia, as investigações mostram que as línguas de sinais, sob o ponto de vista
lingüístico, são completas, complexas e possuem uma abstrata estruturação em todos os
níveis de análise’.
Língua de sinais é língua!3
2.3 O componente gestual das línguas de sinais
Nesta seção, analisamos a origem dos sinais e a motivação de alguns sinais que
compõe a língua de sinais brasileira retomando a questão da gestualidade relacionada
com a “iconicidade”, ou seja, a transparência do signo e do significado e seus limites. A
organização dos sinais nas línguas de sinais se mistura com a organização dos gestos,
pois se apresentam na mesma modalidade, diferentemente das línguas faladas. Nessas
línguas, quando analisamos um sinal, observamos as formas com que se apresentam as
mãos e os movimentos associados a elas.
Os gestos são visuais e representam a ação dos atores que participam da
interação por meio da imitação do ato simbolizando as relações com as coisas. As
línguas de sinais aproveitam esse potencial dos gestos trazendo-o para dentro da língua,
fazendo com que sinais visuais representem palavras envolvendo a organização da
língua. Um exemplo produtivo dessa característica é o uso de classificadores. Este
fenômeno lingüístico é uma representação visual de objetos e ações de forma quase que
transparente, embora apresente características convencionadas de forma arbitrária.
Parece que houve um processo do gestual para o gramatical, mantendo algumas das
características do primeiro e tornando-se parte do sistema lingüístico das línguas de
sinais. Da mesma forma, podemos apontar o uso da referência explícita através da
apontação por meio do dedo indicador.
3 Este sinal refere ao Grupo de Estudos Surdos da Universidade Federal de Santa Catarina.
A apontação passa do estatuto gestual para o
gramatical nas línguas de sinais!
Petitto (1987) analisou a passagem do uso gestual para o uso gramatical da
apontação no processo de aquisição da língua de sinais americana e observou que a
criança reorganiza o uso da apontação recolocando-o na estrutura gramatical da língua
de sinais. Antes de fazer isso, a produção da apontação é completamente aleatória
equivalente ao uso feito pela criança adquirindo uma língua falada. Percebe-se aqui a
passagem do uso gestual para o uso gramatical na produção da criança adquirindo uma
língua de sinais. Evidências como estas nos indicam que o uso gestual pode estar
acontecendo concomitante à língua de sinais, mas que também há gestos que passam a
compor a gramática desta língua.
Alguns dos objetos que apresentam uma forma visual concreta influenciaram a
forma dos seus sinais. Nesse sentido, passamos a tratar da “iconicidade”, ou seja, da
identidade do signo lingüístico e o seu significado. Klima e Bellugi (1979) analisam
detalhadamente a possível iconicidade de alguns sinais em diferentes línguas de sinais e
concluem que ela é arbitrária, assim como os demais sinais. Segundo Quadros (1997),
apesar de apresentarem certa transparência para um determinado grupo de usuários, para
outro não indica o objeto em si. Diferentes línguas de sinais apresentam variadas formas
de representar os objetos lexicalizando-as, isto é, submetendo a representação visual às
condições de formação de palavras que são específicas de sua língua. Assim, um sinal
que tipicamente é melhor representado gestualmente com duas mãos, poderá ser
representado com uma única mão porque nesta língua essa determinada classe
tipicamente utiliza uma única mão. Ou seja, a idéia que está sendo discutida aqui é a de
que a gestualidade das línguas de sinais é submetida às regras dessas línguas quando
passa a fazer parte da língua. Os demais gestos são apenas gestos, assim como
encontrados nas línguas faladas.
3. ESTUDOS LINGÜÍSTICOS DAS LÍNGUAS DE SINAIS
Os estudos lingüísticos das línguas de sinais iniciaram com Stokoe (1960). Este
autor apresentou uma análise descritiva da língua de sinais americana revolucionando a
lingüística na época, pois até então, todos os estudos lingüísticos concentravam-se nas
análises de línguas faladas. Pela primeira vez, um lingüista estava apresentando os
elementos lingüísticos de uma língua de sinais. Assim, as línguas de sinais passaram a
serem vistas como línguas de fato. Stokoe apresenta uma análise no nível fonológico e
morfológico. Neste capítulo estaremos tratando destes dois níveis lingüísticos.
Willian Stokoe (1920-2000) foi um dos primeiros lingüistas
a estudar uma língua de sinais com tratamento lingüístico.
Considerado o pai da lingüística da língua de sinais
americana.
Saiba mais sobre William Stokoe na seguinte página:
http://gupress.gallaudet.edu/stokoe.html
Se você não souber ler em inglês, utilize um tradutor on-line e tente decifrar a tradução
automática.
Aos poucos, os próprios surdos começaram a participar como pesquisadores das
línguas de sinais. No entanto, ainda temos poucos lingüistas surdos investigando a
língua de sinais do seu país.
Ted Supalla e Carol Padden foram os primeiros
lingüistas surdos a estudar a língua de sinais
americana na década de 80.
No Brasil, Ana Regina e Souza Campello, é uma
das primeiras surdas a estudar a língua de sinais
brasileira em 2005.
3.1 FONOLOGIA DAS LÍNGUAS DE SINAIS
Texto obrigatório para a análise deste conteúdo:
QUADROS, R. M. de & KARNOPP, L. Língua de sinais brasileira: estudos
lingüísticos. ArtMed. Porto Alegre. 2004 – Capítulo 2
Fonologia envolve o estudo das unidades menores que irão fazer diferença na formação de
uma palavra. Por exemplo, no português, os sons de /p/ e de /b/ são distintivos porque
formam um par mínimo /pala/ e /bala/. O par mínimo indica que ao mudar apenas uma
unidade mínima, ou seja, /p/ e /b/, em uma determinada combinação determinará mudança
de significado. Isso é o que acontece com os pares mínimos listados na língua de sinais
brasileira a seguir.
As línguas humanas estão organizadas em níveis hierárquicos em que frases são
constituídas por uma seqüência de palavras e estas, por uma seqüência de sons,
correspondendo assim à sintaxe, morfologia e fonologia, respectivamente, de uma dada
língua. E com relação às línguas de sinais? Elas também apresentam esta mesma
estrutura? É possível identificar unidades mínimas que formam os sinais?
Apesar de ainda haver muito desconhecimento em relação às línguas sinalizadas,
os sinais não são gestos holísticos, ou seja, não formam um todo indivisível. Quem
primeiro percebeu os parâmetros internos dos sinais foi STOKOE em 1960. Os sinais
são analisáveis como uma combinação de três categorias lingüísticas sem significado:
configuração de mão, locação e movimento. Ou seja, se mudarmos alguma
característica de qualquer uma destas categorias, podemos mudar o significado de um
sinal. Por exemplo, se mudarmos apenas a configuração de mãos, os sinais DECIDE
(decidir) e PERSON (pessoa), da ASL são distinguíveis. Nesses dois sinais as locações
e movimentos são os mesmos e somente a configuração de mão é diferente.
Figura 1: Par mínimo na ASL (retirado de Sandler e Lillo-Martin, 2000)
É possível, também, distinguir pares similares por meio de diferenças na locação ou no
movimento dos sinais. Em todos esses casos, se considerarmos isoladamente cada
parâmetro, ou seja, somente a configuração de mão, a locação ou o movimento, eles não
possuem significado algum.
Essa descoberta foi muito importante, pois elevou as línguas de sinais ao mesmo
patamar das línguas faladas. A partir do trabalho de STOKOE com a ASL, foi possível
mostrar que a ASL também apresenta uma das características fundamentais das línguas
humanas, que é a dupla articulação. Ou seja, de um lado existe um nível de significado
constituído de morfemas, palavras, sintagmas e sentenças e de outro, um nível sem
significado que no caso das línguas faladas corresponde aos sons que compõem as
expressões com significado e nas línguas de sinais corresponde às configurações de
mãos, às locações e aos movimentos com a mesma função das línguas faladas. Esses
elementos sem significados são importantíssimos linguisticamente, pois distinguem
significado quando combinados uns com os outros.
Continuando o paralelo entre as línguas faladas e sinalizadas, as línguas de sinais
também obedecem a restrições nas combinações entre seus elementos. Por exemplo,
todas as línguas têm processos de assimilação, em que os sons tomam emprestados
algumas ou várias características dos sons vizinhos. Nas línguas de sinais, isso também
ocorre. Na ASL, o sinal composto BELIEVE é feito de dois outros sinais THINK e
MARRY. Nessa composição, o sinal THINK toma emprestado uma das características
do sinal seguinte da composição (MARRY), que é a orientação. Assim, ao invés de ser
orientado em direção à cabeça, o sinal THINK será orientado em direção à palma da
outra mão, de acordo com o sinal MARRY. Veja o exemplo:
Figura 2: Sinais THINK (pensar) e Marry (casar) e o composto BELIEVE (acreditar)
(retirado de Sandler e Lillo-Martin, 2000)
A fonologia das línguas de sinais também demonstrou similaridade com as
línguas faladas na organização dos elementos fonológicos. Foi demonstrado que os
elementos fonológicos das palavras na ASL não são somente organizados
simultaneamente. Ao invés disso, mostram que há uma estrutura seqüencial
significativa, em que os elementos fonológicos ocorrem um após o outro, equivalendo a
uma sílaba. Um exemplo interessante é o sinal SURDO. Este sinal apresenta seus
elementos mínimos de forma seqüencial, ou seja, o sinal inicia na locação abaixo da
orelha, depois há um movimento em arco em direção à boca e terminando na locação no
canto da boca. Há uma seqüência formada de locação-movimento-locação.
Outro aspecto da estrutura da língua que envolve tanto a fonologia quanto a
sintaxe é a prosódia. Esta envolve ritmo, que separa as partes de uma sentença,
proeminência, que enfatiza elementos selecionados e entonação, que comunica outras
informações importantes como os diferentes tipos de sentença (sentença declarativa,
interrogativa, etc.). Trabalhos recentes mostram que as línguas de sinais têm o
equivalente a uma prosódia. Enquanto as línguas faladas usam o aumento e a queda do
pitch da voz, volume e pausa para obter esses efeitos, as línguas de sinais aplicam
expressões faciais, posturas corporais e rítmicas com forma e função similares. Por
exemplo, a língua de sinais israelense (ISL) vai utilizar uma expressão facial
diferenciada para perguntas sim/não e outra expressão para informações já partilhadas
entre os interlocutores. Veja o exemplo:
Figura 3: Expressões faciais da ISL para perguntas sim/não e para informação
compartilhada. (retirado de Sandler e Lillo-Martin, 2000)
Esses são alguns aspectos próprios da fonologia das línguas que podemos
identificar nas línguas de sinais. E na língua de sinais brasileira, como é a fonologia?
A língua de sinais brasileira apresenta um conjunto de unidades menores que são
compostas pelas configurações de mãos (CM), pelas locações (L) e pelos movimentos
(M).
(Quadros e Karnopp, 2004)
Consulte o site http://www.ines.org.br/libras/index.htm para visualizar todas as
configurações de mão da língua brasileira de sinais.
O conjunto de locações restringe-se ao espaço de sinalização que inclui o tronco,
os braços, o rosto e o espaço neutro a frente do sinalizante.
Exemplos de glosas de sinais com diferentes locações em LIBRAS:
EDUCADO (no braço)
TELEVISÃO (no espaço neutro)
EMPREGADA (abaixo da cintura)
CONSEGUIR (na bochecha)
AMARELO (no nariz)
ALEMANHA (na testa)
ÁGUA (no queijo)
SABER (na fronte)
SUPORTAR (no alto da cabeça)
Segundo Quadros e Karnopp (2004:54), ‘o movimento é definido como um
parâmetro complexo que pode envolver uma vasta rede de formas e direções, desde
movimentos internos da mãos, os movimentos do pulso e os movimentos direcionais no
espaço (Klima e Bellugi, 1979)’.
Exemplos de glosas de sinais em LIBRAS com diferentes movimentos:
TELEVISÃO
VÍDEO
INTERNET
MENSALIDADE
FAMÍLIA
PERIGOSO
DIARIAMENTE
A combinação destas unidades menores sem significado pode formar as palavras
na língua de sinais. Ao combiná-las, podemos identificar quais são realmente relevantes
na língua de sinais, assim identificamos os “fonemas” da língua de sinais brasileira.
Fonema é a unidade mínima sem significado de uma determinada língua. Um fonema pode
ter alofones, ou seja, realizações variadas de um mesmo fonema. No português, em alguns
contextos lingüísticos o /t/ pode ser produzido como /tch/ em algumas regiões do Brasil,
mas isso não implica em mudança de significado. Por exemplo, /tia/ e /tchia/.
Na língua de sinais, ainda não temos estudos que identificam os seus fonemas e
alofones, mas sabemos que isso acontece. Por exemplo, o sinal de DOMINGO, pode ser
produzido com duas configurações diferentes dependendo de quem sinaliza.
Exemplos de glosas de sinais em LIBRAS que apresentam alofones:
DOMINGO (D aberto e D fechado)
SOLDADO (polegar aberto e polegar fechado)
TREINAR (na parte de cima do braço e na parte de baixo do braço)
Uma forma de identificar os fonemas distintivos de uma língua é listar pares
mínimos.
Pares mínimos: as formas fonológicas das palavras são idênticas em tudo, exceto em uma
característica específica. Por exemplo, em português BALA, PALA. Os sons iniciais de
cada uma destas palavras são distintivos, pois mudam o significado da palavra. Assim, /b/ e
/p/ são fonemas do português que se diferenciam somente pela sonoridade.
Na língua de sinais podemos também listar pares mínimos em relação às
configurações de mão, ou à locação, ou ao movimento em que apenas a mudança de um
destes elementos em contraste com os demais idênticos vai identificar o seu valor
distintivo na língua.
a) Quanto ao movimento
QUEIJO/RIR
ACUSAR/ADMIRAR
SABER/NÃO SABER
PERIGOSO/MAMÃE
ACOSTUMAR/TREINAR
b) Quanto à configuração da mão
CUIDAR/AJUDAR
MARROM/ROXO
ACOSTUMADO/EDUCADO
CURSO/TREINAR
EXPERIMENTAR/DIARIAMENTE
c) Quanto à locação
APRENDER/SÁBADO
QUEIJO/FEIO
AZAR/DESCULPA
VERDE/PAPAI
NÃO-SEI/BRANCO
Além destes três conjuntos de unidades mínimas, Quadros e Karnopp (2004)
ainda apresentam a orientação da mão e as marcações não-manuais. Em relação ao
primeiro, alguns sinais determinam mudança de significado apenas com a mudança na
orientação da mão. Por exemplo, assim como observado no sinal de AJUDAR.
(Quadros e Karnopp, 2004:79)
Glosas de outros exemplos em sinais:
ACONSELHAR
PERGUNTAR
JOGAR-ALGO
ENSINAR
Neste exemplo, o sinal com a orientação da palma da mão voltada para frente
significa que está se ajudando alguém (uma terceira pessoa do discurso). Se a orientação
da mão estivesse virada para dentro, o significado já seria outro: alguém (uma segunda
ou terceira pessoa) me ajuda (primeira pessoa do discurso). A direção do movimento
associada à orientação da palma da mão indica a fonte e o alvo da ação, ou seja, no
exemplo acima, a fonte é a primeira pessoa e o alvo é a terceira pessoa associada ao
ponto estabelecido no espaço à frente da sinalizante no qual a direção do movimento se
move. Note que a orientação da palma da mão determina o objeto da sentença, enquanto
que a direção está associada à questão semântica (significado da relação espacial).
Glosas de outros exemplos em sinais:
BUSCAR/PEGAR
COPIAR
A combinação de unidades menores, os fonemas, pode ser realizada utilizandose
uma ou duas mãos para formar um sinal. O sinal com duas mãos pode ter a mesma
configuração de mão ou não. No primeiro caso, o movimento associado ao sinal deve
ser simétrico (condição de simetria). A seguir apresentamos alguns exemplos:
Sinais com duas mãos e mesma configuração de mão:
TRABALHAR
TELEVISÃO
NAMORAR
VÍDEO
BRINCAR
No segundo caso, há possibilidade de haver a combinação de duas configurações
de mão, no entanto, uma mão necessariamente será passiva e a outra ativa. A seguir
apresentamos alguns exemplos:
ERRAR
FINGIR
ÁRVORE
AJUDAR
BANHEIRO
3.2 MORFOLOGIA DAS LÍNGUAS DE SINAIS
Texto obrigatório para a análise deste conteúdo:
QUADROS, R. M. de & KARNOPP, L. Língua de sinais brasileira: estudos
lingüísticos. ArtMed. Porto Alegre. 2004 – Capítulo 3
Morfologia é o estudo da estrutura interna das palavras (faladas ou sinalizadas), ou seja, das
unidades mínimas com significado (morfemas) e todos os aspectos relacionados a elas (sua
distribuição, classificação, variantes, etc). Envolve, também, os processos de formação e
derivação das palavras.
As línguas de sinais mostram grande similaridade em suas estruturas
morfológicas. Todas as línguas de sinais já estudadas apresentam as mesmas
particularidades em sua complexa morfologia. Segundo Aronoff et al. (2004), dois dos
aspectos centrais nas construções morfológicas são: a concordância verbal para pessoa e
número do sujeito e do objeto em um grupo específico de verbos (os chamados verbos
com concordância) e o sistema de construções de classificadores que combinam
configurações de mãos de classificadores nominais com a forma da trajetória, do
movimento e com as locações, afixando diferentes morfemas ao sinal. Esse tipo de
morfologia apresenta uma estrutura não-concatenativa, combinando os morfemas de
forma simultânea ao invés de seqüencial.
Por outro lado, as línguas de sinais apresentam outro tipo de morfologia, que é
comumente encontrado em línguas faladas, que é a afixação seqüencial que surge por
meio da gramaticalização, mas este é um aspecto que não recebe muita atenção dos
pesquisadores. Aronoff et al. (2005) encontraram esse tipo de afixação na ASL (língua
de sinais americana) e na ISL (língua de sinais israelense), mas em ambas as línguas é
um caso raro. Esta escassez de afixação seqüencial ocorre devido a dois fatores que
estão interligados. Primeiramente, como esses afixos emergem por meio do processo de
gramaticalização de itens lexicais livres, eles levam tempo para se desenvolverem na
língua. Em segundo lugar, eles passam por vários estágios intermediários nesse
processo e alguns deles podem co-existir na língua durante certo período, fazendo com
que seja difícil identificá-los como tal.
Essas estruturas lineares diferem significativamente das estruturas simultâneas
não apenas na forma como os morfemas são afixados uns aos outros, mas de outras
formas, listadas a seguir:
- a ocorrência, a função gramatical e a forma das construções morfológicas
seqüenciais são específicas de cada língua;
- as construções morfológicas seqüenciais são variáveis entre os sinalizantes;
- as construções morfológicas seqüenciais são freqüentemente de produtividade
limitada.
Como exemplo da morfologia seqüencial, apresentamos o sufixo de negação da
ASL que é anexado a verbos. Este sufixo é um sinal realizado com uma mão, em que os
dedos tomam a forma do número ZERO e há o movimento que parte do sinalizante em
direção ao espaço neutro. Este sufixo provavelmente originou-se de um sinal
independente que é fonologicamente similar a ele. Veja o exemplo a seguir:
Figura 44: (a) SEE (VER); (b) Palavra Independente: NONE-AT-ALL
(absolutamente nada); (c) Forma Afixada: SEE-ZERO, ‘not see at all’ (NÃO VER
ABSOLUTAMENTE NADA).
Uma das razões para considerar a forma apresentada como um sufixo, ao invés
de uma palavra independente, é que ela ocorre sempre depois da raiz verbal, nunca antes
dela. Já a palavra independente pode aparecer tanto antes como depois do verbo. Além
disso, há uma restrição fonológica que reforça essa forma como um sufixo: ela pode
ocorrer apenas com uma raiz realizada com uma das mãos. Essa restrição confirma a
afirmação de que se trata de uma palavra complexa e não duas palavras independentes.
Como exemplo da morfologia simultânea, apresentamos os verbos com
concordância. Diferentemente da concordância verbal nas línguas faladas, os verbos nas
línguas de sinais se dividem em três grupos (identificados primeiramente por Padden,
1983): verbos simples, verbos espaciais e verbos com concordância. Estes últimos
concordam com os argumentos que têm função sintática de sujeito e objeto e eles se
4 Figuras retiradas de Aronoff, Meir, Padden & Sandler (2004).
comportam da seguinte forma nas línguas de sinais: os pontos de início e de final dos
verbos de concordância estão associados com pontos estabelecidos no espaço para os
argumentos do verbo. Os sintagmas nominais em uma oração estão associados com
discretas locações no espaço, chamadas loci-R(eferencial), que podem ser associadas
sinalizando o NP e logo após apontando ou direcionando o olhar para a sua localização
no espaço, conforme o exemplo abaixo na ISL:
SON (FILHO) INDEXi (apontação)
DOG (CACHORRO) POSSi (Possessivo)
Figura 55: Estabelecendo e fazendo a referência a um locus referencial no espaço
(ISL): SON INDEXi DOG POSSi
Esses loci-R são usados para referência pronominal e anafórica dos sintagmas
nominais associados a eles. Além disso, os verbos com concordância fazem uso desse
sistema de loci-R, de modo que a direção da trajetória do movimento é determinada por
um loci-R dos argumentos do verbo. Ou seja, os pontos de início e de final dos verbos
com concordância são determinados pelos loci-R de seus argumentos gramaticais. Veja
o exemplo da ASL, a seguir, com o verbo ASK (PERGUNTAR), no qual o movimento
do verbo sai da locação associada ao argumento sujeito e vai em direção à locação do
argumento objeto.
5 Figuras retiradas de Aronoff, Meir, Padden & Sandler (2004).
Figura 66: (a) 1ASK2 ‘I ask you’ (1PERGUNTAR2 – ‘Eu pergunto para você’)
(b) jASK1 ‘S/he asks me’ (jPERGUNTAR1 – ‘El@ pergunta para mim’)
Nos verbos de concordância7, podemos identificar dois mecanismos
morfológicos. Um deles é a trajetória do movimento do verbo, que parte da locação do
sujeito e vai em direção à locação do objeto e estão associados aos papéis temáticos
‘fonte’ e ‘alvo’. O outro mecanismo é a orientação da mão, ou seja, a direção para a
qual a palma da mão ou a ponta dos dedos estão viradas. Estes dois mecanismos são
determinados por dois princípios: (1) a trajetória do movimento é determinada pelos
papéis temáticos dos argumentos (vai da fonte em direção ao alvo) e (2) a orientação da
mão é determinada pelos papéis sintáticos dos argumentos, sendo que a orientação da
mão vai em direção ao objeto do verbo.
Conforme mencionado acima, as línguas de sinais apresentam dois tipos de
morfologia. Um dos tipos é simultâneo e foi exemplificado pelos verbos de
concordância, enquanto o outro tipo é seqüencial e foi ilustrado com o sufixo de
negação da ASL. Cada um dos tipos é caracterizado por um conjunto diferente de
propriedades, sustentando a afirmação de que realmente são dois tipos distintos de
morfologia.
6 Figuras retiradas de Aronoff, Meir, Padden & Sandler (2004).
7 Essa diferença apresentada nos verbos de concordância das línguas de sinais em relação aos verbos de
concordância nas línguas faladas muito tem a ver com as diferenças de modalidade entre essas línguas.
Pelo fato de as línguas de sinais serem transmitidas pelas mãos, rosto e corpo e percebidas pela visão, faz
com que elas tenham a capacidade de representar certos conceitos espaços-temporais de uma forma mais
direta do que as línguas faladas. Esta propriedade permite que as línguas de sinais tenham estruturas
morfológicas que não são totalmente arbitrárias e que podem ser similares entre as línguas de sinais.
O tipo simultâneo é universal entre as línguas de sinais; pode ser encontrado em
todas as línguas de sinais já estudadas. Embora o sistema de concordância não seja
idêntico entre as línguas de sinais, eles partilham as mesmas características básicas: a
classificação dos verbos em três grupos e as características morfológicas e fonológicas
para cada grupo. Este tipo está relacionado com a cognição visual-espacial e pode ser
considerado como uma representação direta de certas funções cognitivas espaciais. As
marcas de concordância não estão relacionadas a palavras livres da língua e não são
encontradas variações individuais na estrutura do sistema.
Já o tipo seqüencial é diferente em todas essas formas. É específico para cada
língua de sinais; o sufixo da ASL acima mencionado, por exemplo, não foi comprovado
em outras línguas de sinais. É uma construção afixal que representa a gramaticalização
de uma palavra livre e é derivacional. Além disso, há uma quantidade considerável de
variação individual na utilização destas formas.
No quadro abaixo, retirado de Aronoff et al. (2005), as diferenças estão
apresentadas de forma resumida:
Simultâneo Seqüencial
- Universal entre as línguas de sinais - Específico para cada língua de sinais
- Relacionado a cognição espacial - Não relacionado a cognição espacial
- Motivado - Arbitrário
- Não relacionado a palavras livres - Gramaticalizado de palavras livres
- Coerente semanticamente - Menos coerente semanticamente
- Produtivo - Produtividade limitada
- Menos variação individual - Variação individual considerável
Nas línguas de sinais, podemos encontrar vários processos morfológicos, tanto
flexionais como derivacionais, mas estes serão apresentados especificamente em relação
à Libras. Então, vamos estudar a morfologia da Libras?
Em relação à língua de sinais brasileira, há vários aspectos da morfologia que
ainda não foram estudados. Quadros e Karnopp (2004) apresentam uma revisão de
alguns estudos realizados com a língua de sinais americana e apresentam algumas
possíveis aplicações à língua de sinais brasileira.
Entre os aspectos discutidos pelas autoras, está o processo de derivação de sinais.
Derivação: trata da criação de uma palavra (falada ou sinalizada) a partir de outra. Resulta
na mudança do significado lexical ou na categoria lexical.
Há vários exemplos de derivação de sinais que mudam a categoria do substantivo para a
categoria do verbo. Entre eles, mencionamos os seguintes:
FUTEBOL – CHUTAR
CADEIRA – SENTAR
ESCOVA – ESCOVAR
TELEFONE – TELEFONAR
TESOURA - CORTAR
Nestes exemplos, percebe-se uma mudança no padrão do movimento. Na
produção do substantivo, o movimento é curto e repetido rapidamente, enquanto que na
produção do verbo é longo e repetido lentamente.
Há vários processos de composição que foram identificados por Quadros e
Karnopp (2004). Apresentamos a seguir apenas um tipo que está associado à regra de
contato. Neste caso, o contato do primeiro, do segundo e do possível terceiro sinal é
mantido. Observe que no sinal de ESCOLA, composto pelos sinais de CASA e
ESTUDAR, o movimento associado a cada sinal de origem é apagado e o contato se
mantém nos dois sinais formando um sinal único, o sinal de ESCOLA.
Exemplos de glosas em LIBRAS:
ESCOLA
IGREJA
PAIS
As autoras também apresentam a incorporação do numeral ao sinal. Há vários
exemplos deste tipo na língua de sinais brasileira. Todos se restringem e incorporam no
máximo os numerais até quatro. No exemplo a seguir, as glosas do sinal de HORA
incorporam os números dois, três e quatro.
1 HORA 2 HORAS 3 HORAS 4 HORAS
1 DIA, 2 DIAS, 3 DIAS E 4 DIAS
1 MÊS, 2 MESES, 3 MESES E 4 MESES
1 PRESTAÇÃO, 2 PRESTAÇÕES, 3 PRESTAÇÕES, 4 PRESTAÇÕES
Há também a possibilidade de incorporação da negação em alguns verbos.
Nestes casos, ao invés do sinalizante utilizar o item lexical de negação, ele produz o
sinal já com a negação incorporada ao verbo. Isso se dá com a adição de um
movimento. A seguir apresentamos glosas com outros exemplos em LIBRAS:
GOSTAR NÃO-GOSTAR
QUERER NÃO QUERER
SABER NÃO SABER
TER NÃO TER
Foi observado também que há empréstimos do português em que o sinal é
produzido com a soletração, embora esta sofra um processo de lexicalização moldandose
às regras da língua de sinais brasileira. A seguir apresenta-se o sinal de SOL que tem
duas configurações de mão. A inicial é a configuração de mãos que representa também
a letra S no alfabeto manual e a segunda é a configuração que representa a letra L no
alfabeto manual da língua de sinais brasileira. Ao invés da soletração S-O-L, a produção
do sinal ocorre em uma locação diferenciada da produção da soletração e omite a vogal
O, passando a ser produzida S-L. Esse processo fonológico observa a restrição de que
um sinal deve ter no máximo duas configurações de mãos ao ser produzido com uma
mão.
Glosas com outros exemplos:
PAI
ACHO
SOL
Flexão: tem como função principal marcar privilégios de ocorrência distintos, através das
categorias gramaticais peculiares a determinadas classes de palavras.
Existem vários processos de flexão na língua de sinais brasileira. Eles foram
identificados a partir de estudos realizados por Klima e Bellugi (1979) com a língua de
sinais americana.
Pessoa (deixis): é a flexão utilizada para marcar as referências pessoais nos
verbos com concordância. O referente é realizado por meio da apontação para
diferentes locais no espaço, estabelecidos para identificá-los quando estes não
estão presentes no discurso. No caso de referentes presentes, a apontação é
direcionada para a posição real do referente. A seguir, apresentamos algumas
glosas com exemplos:
ENTREGAR PARA MIM
ENTREGAR PARA ELE
ENTREGAR PARA TI
ENTREGAR PARA ELES
Número: é a flexão que indica o singular, o dual, o trial e o múltiplo. Existem
várias formas de substantivos e verbos apresentarem a flexão de número na
língua de sinais brasileira. Uma delas é a diferenciação entre singular e plural
realizada por meio da repetição do sinal. No caso de verbos com concordância, a
flexão de número refere-se à distinção feita para um, dois, três ou mais
referentes. A seguir, apresentamos algumas glosas com exemplos:
ENTREGAR PARA UM
ENTREGAR PARA DOIS INDIVIDUALMENTE
ENTREGAR PARA TRÊS INDIVIDUALMENTE
ENTREGAR PARA VÁRIOS INDIVIDUALMENTE
Grau: apresenta distinções para ‘menor’, ‘mais próximo’, ‘muito’, etc. A seguir,
apresentamos algumas glosas com exemplos:
CASA, CASINHA, MANSÃO
CASA_LONGE, CASA_PERTO
Aspecto: esta categoria está subdividida em:
1. Aspecto distributivo: está intimamente
relacionado com a flexão de número nos
verbos com concordância e também nos
verbos espaciais.
a) exaustiva: a ação é repetida
exaustivamente:
DAR, AVISAR, TRATAR (42)
b) distributiva específica: quando a ação
de distribuição é feita para referentes
específicos.
DAR, AVISAR, TRATAR (45)
c) distributiva não-específica: quando
a ação de distribuição é feita para
referentes indeterminados.
AVISAR_todos (44)
2. Aspecto temporal: refere-se
exclusivamente à distribuição temporal,
não envolve a flexão de número.
a) incessante: a ação ocorre
incessantemente.
CUIDAR , AVISAR (50, 53)
b) ininterrupta: a ação inicia e continua de
forma ininterrupta.
CUIDAR, AVISAR (52, 54)
c) habitual: a ação apresenta recorrência.
CUIDAR, AVISAR (51, 55)
d) contínua: a ação apresenta recorrência
sistemática.
GASTAR, DAR (56, 59)
e)duracional: a ação tem um caráter
durativo, permanente:
GASTAR, DAR (57, 58)
Tipos de verbos na língua de sinais brasileira:
Segundo QUADROS e KARNOPP (2004), os verbos na língua de sinais
brasileira estão divididos nas seguintes classes:
a) Verbos simples: são verbos que não se flexionam em pessoa e número e não
incorporam afixos locativos. Alguns desses verbos apresentam flexão de aspecto. Todos
os verbos ancorados no corpo são verbos simples. Há também alguns que são feitos no
espaço neutro. Exemplos dessa categoria são CONHECER, AMAR, APRENDER,
SABER, INVENTAR, GOSTAR.
Os verbos simples podem incorporar pontos espaciais em determinadas
situações, como na glosa do exemplo abaixo:
IX<1> CASAd PAGARd
Nesse exemplo, o sinal de casa foi estabelecido em um ponto no espaço (d) e o
sinal do verbo foi realizado em cima deste mesmo ponto tornando a expressão definida
e específica.
b) Verbos com concordância: são verbos que se flexionam em pessoa, número e
aspecto, mas não incorporam afixos locativos. Exemplos dessa categoria são DAR,
ENVIAR, RESPONDER, PERGUNTAR, DIZER, PROVOCAR, que são subdivididos
em concordância pura e reversa (backwards). Os verbos com concordância apresentam
a direcionalidade e a orientação. A direcionalidade está associada às relações semânticas
(source/goal). A orientação da mão voltada para o objeto da sentença está associada à
sintaxe marcando Caso.
c) Verbos espaciais (+loc) - são verbos que têm afixos locativos. Exemplos dessa
classe são COLOCAR, IR, CHEGAR.
Temos também os verbos manuais (verbos classificadores). Estes verbos usam
classificadores e incorporam a ação. Exemplos dessa classe de verbos são COLOCARBOLO-
NO-FORNO, SENTAR-NO-MURO.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ARONOFF, M.; MEIR, I. & SANDLER, W. The paradox of sign language
morphology. Language, Volume 81, Number 2, 2005.
ARONOFF, M.; MEIR, I.; PADDEN, C. & SANDLER, W. Morphological
universals and the sign language type. In: BOOIJ, G.; MARLE, J. van.
Yearbook of Morphology. Kluwer Academic Publishers. Netherlands, 2004.
p. 19-38.
BELLUGI, U.; POIZER, H.; KLIMA, E. Language, modality and the brain. Trends in
neurosciences - reviews – TINS, vol. 12, nº 10, p. 380-388, 1989.
EMMOREY, K.; BELLUGI, U. & KLIMA, E. Organização neural da língua de sinais.
Em Língua de sinais e educação do surdo. Eds. Moura,M. C.; LODI, a. C. e
PEREIRA, M. C. Sociedade Brasileira de Neuropsicologia. SBNp. São Paulo. 1993.
HICKOK, G.; BELLUGI, U.; KLIMA, E. How does the human brain process language?
New studies of deaf signers hint at an answer. Scientific American, INC, 2002.
KLIMA, E. & BELLUGI, U. (1979) The signs of language. Cambridge: Harvard
University Press.
PADDEN, C. Interaction of morphology and syntax in ASL. San Diego: University of
California, Doctoral Dissertation, 1983.
PETITTO, L. On the Autonomy of Language and Gesture: Evidence from the
Acquisition of Personal Pronoums in American Sign Language. In Cognition.
Elsevier Science Publisher B.V. vol. 27. 1987. (1-52).
POIZER, H.; BELLUGI, U. Language research: new views of how the brain works. The
Salk Institute Research Report. 1989.
QUADROS, R. M. de (1997). Educação de surdos: a aquisição da linguagem. Porto
Alegre: Artmed.
QUADROS, R. M. de & KARNOPP, L. Língua de sinais brasileira: estudos
lingüísticos. ArtMed: Porto Alegre, 2004.
RODRIGUES, N. Organização neural da linguagem. Em Língua de sinais e educação
do surdo. Eds. Moura,M. C.; LODI, a. C. e PEREIRA, M. C. Sociedade Brasileira
de Neuropsicologia. SBNp. São Paulo. 1993.
SANDLER, W. & LILLO-MARTIN, D. 2000. Natural Sign Language. In: The
Handbook of Linguisitcs, eds. M. Aronoff & J. Rees-Miller, 533-562. Oxford:
Blackwell.
STOKOE, W. (1960) Sign and Culture: A Reader for Students of American Sign
Language. Listok Press, Silver Spring, MD.

INTRODUIÇÃO A EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA

http://www.libras.ufsc.br/hiperlab/avalibras/moodle/prelogin/adl/fb/logs/Arquivos/textos/intro_ead/Intro_EAD_pdf_.pdf

ESTUDOS DA TRADUÇÃO 1

http://www.libras.ufsc.br/hiperlab/avalibras/moodle/prelogin/adl/fb/logs/Arquivos/textos/estudos_da_traducao/Estudos_Traducao_I.pdf

TEXTO BASE FUNDAMENTOS NA EDUCAÇÃO DE SURDOS 'LINK'

http://iserj.net/wp-content/uploads/downloads/2010/08/Fundamentos-da-Educa%C3%A7%C3%A3o-de-Surdos_Texto-Base.pdf

introdução aos estudos da tradução

UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA
Licenciatura e Bacharelado em Letras-Libras na Modalidade a Distância
INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS DA TRADUÇÃO
Autora: Andréia Guerini
Florianópolis, julho de 2008
SUMÁRIO
· INTRODUÇÃO
· QUESTÕES GERAIS SOBRE A TRADUÇÃO
· TIPOS DE TRADUÇÃO
· FUNÇÕES DO TRADUTOR E DO INTÉRPRETE
· CONCLUSÃO
INTRODUÇÃO
Esta disciplina quer discutir o conceito de tradução, atividade essa que é uma das mais
antigas do mundo. É a forma que os homens de diferentes línguas encontraram para se
comunicar. Não há atividade lingüística sem tradução e o próprio aprendizado de
qualquer língua passa necessariamente pela tradução. No mundo/na cultura dos surdos,
a tradução também ocupa um lugar central, pois é forma de estar comunicando com os
ouvintes e também entre os próprios surdos como veremos na unidade 1 e 2. Assim, ao
longo do curso, vamos discutir:
Unidade 1: O que é tradução
Unidade 2: Tipos de tradução, conforme a tipologia definida por Roman Jakobson.
Unidade 3: Tradução e interpretação, segundo autores como Schleiermacher, Mounin,
Maria Cristina Pires Pereira, entre outros.
Para isso, examinaremos as definições apresentadas em obras de referência e nos
principais autores que trataram do assunto.
QUESTÕES GERAIS SOBRE A TRADUÇÃO
Nesta unidade vamos estudar as possíveis acepções da palavra “traduzir” e de como
ela vem sendo discutida ao longo dos anos.
A palavra traduzir deriva do latim traducere e, segundo o dicionário Aurélio,
etimologicamente significa “conduzir além”, “transferir”. Atualmente, seu leque de
significados é muito amplo e além do original “transferir” quer dizer, entre outras
coisas, também “transpor, trasladar de uma língua para outra”, “revelar, explicar,
manifestar, explanar”, “representar, simbolizar”. Traduzir no sentido de “passar de uma
língua a outra” é uma metáfora do ato físico de transferir. Por sua vez, o próprio verbo
traduzir, e o substantivo derivado tradução, são empregados, com freqüência, como
uma metáfora para descrever outros fenômenos parecidos. Assim, traduzir designa, de
modo restrito, uma operação de transferência lingüística e, de modo amplo, qualquer
operação de transferência entre códigos ou, inclusive, dentro de códigos.
A palavra tradução em algumas línguas
· Albanês: transmetim
· Alemão: Übersetzung
· Espanhol: traducción
· Esperanto: traduko
· Francês: traduction
· Grego: metaphrase
· Indonésio: terjemahan
· Inglês: translation
· Italiano: traduzione
· Guarani: ñembohasa
· Neerlandês: vertaling
· Húngaro: fordítás
· Tcheco: překlad
· Turco: tercüme
A palavra translation em html (código usado para compor as páginas na
internet)
Html: &#84 &#114 &#97 &#110 &#115 &#108 &#97 &#116 &#105 &#111
&#110
A tradução dentro da mesma língua, operação normalmente conhecida como
paráfrase e que Jakobson denominou tradução intralingüística é assim descrita por
Octavio Paz1 (1914-1998) em “Traducción: literatura y literalidad”:
aprender a falar é aprender a traduzir: quando uma criança pergunta a sua mãe o significado
desta ou daquela palavra, o que realmente pede é que traduza para a sua linguagem a
palavra desconhecida. A tradução dentro de uma língua não é, nesse sentido,
1 http://www.ensayistas.org/filosofos/mexico/paz/
essencialmente diferente da tradução entre duas línguas, e a história de todos os povos
repete a experiência infantil (1990: 9).
Dentro desta concepção não há atividade lingüística sem tradução e o próprio
aprendizado de qualquer língua passa necessariamente pela tradução. Não espanta,
portanto, que a tradução seja uma das mais antigas atividades do mundo. Ela, de fato,
existe desde tempos imemoriais, em todo tipo de troca entre seres humanos. Mas lembra
Susan Bassnett que no passado a tradução era “considerada uma atividade marginal”
(2003: 1), que só começou a ser vista como um ato fundamental do intercâmbio humano
no século XX.
Em A tradução vivida, Paulo Rónai, ao contestar as definições dadas à palavra
tradução, observa que:
Ao definirem “tradução”, os dicionários escamoteiam prudentemente esse aspecto e
limitam-se a dizer que “traduzir é passar para outra língua”. A comparação mais óbvia é
fornecida pela etimologia: em latim, traducere é levar alguém pela mão para o outro lado,
para outro lugar. O sujeito deste verbo é o tradutor, o objeto direto, o autor do original a
quem o tradutor introduz num ambiente novo [...] Mas a imagem pode ser entendida
também de outra maneira, considerando-se que é ao leitor que o tradutor pega pela mão
para levá-lo para outro meio lingüístico que não o seu (1976: 3-4).
Nesse sentido, Paulo Rónai chama de “tradução naturalizadora”, a que “conduz
uma obra estrangeira para outro ambiente lingüístico, adaptando ao máximo aos
costumes do novo meio, retira-lhe as características exóticas, faz esquecer que reflete
uma realidade longínqua, essencialmente diversa” e de “tradução identificadora”, “que
conduz o leitor para o país da obra que lê significa, e mantém cuidadosamente o que
essa tem de estranho, de genuíno, e acentuar a cada instante a sua origem alienígena”
(1976: 3-4). Esses aspectos da tradução naturalizadora e identificadora serão melhor
discutidos na unidade 2.
Como visto anteriormente, a tradução é uma atividade antiga e já foi descrita na
Bíblia. Derrida inicia o seu ensaio “Torres de Babel2”, evocando o texto bíblico e ao
longo de todo o texto argumenta que Deus separou os homens para criar a tradução.
Assim, o relato da confusão babélica se origina na Bíblia3 Gênesis 11:
2 http://www.estadosgerais.org/resenhas/telles-babel.shtml
3 http://www.bibliacatolica.com.br/
1 Toda a terra tinha uma só língua, e servia-se das mesmas palavras.
2 Alguns homens, partindo para o oriente, encontraram na terra de Senaar uma
planície onde se estabeleceram.
3 E disseram uns aos outros: “Vamos, façamos tijolos e cozamo-los no fogo.”
Serviram-se de tijolos em vez de pedras, e de betume em lugar de argamassa.
4 Depois disseram: “Vamos, façamos para nós uma cidade e uma torre cujo
cimo atinja os céus. Tornemos assim célebre o nosso nome, para que não
sejamos dispersos pela face de toda a terra.”
5 Mas o senhor desceu para ver a cidade e a torre que construíram os filhos
dos homens.
6 “Eis que são um só povo, disse ele, e falam uma só língua: se começam
assim, nada futuramente os impedirá de executarem todos os seus
empreendimentos.
7 Vamos: desçamos para lhes confundir a linguagem, de sorte que já não se
compreendam um ao outro.”
8 Foi dali que o Senhor os dispersou daquele lugar pela face de toda a terra, e
cessaram a construção da cidade.
9 Por isso deram-lhe o nome de Babel, porque ali o Senhor confundiu a
linguagem de todos os habitantes da terra, e dali os dispersou sobre a face de
toda a terra.
Segundo George Steiner,
o fato de que milhares e milhares de línguas diferentes e mutuamente incompreensíveis
foram e são faladas em nosso pequeno planeta é uma expressão clara do enigma profundo
da individualidade humana, da evidência biogenética e bissocial de que não existem dois
seres humanos inteiramente iguais. O evento de Babel confirmou e externalizou a
interminável tarefa do tradutor (2005: 72).
Logo, a tradução é necessária porque os seres humanos falam diferentes línguas e
também porque ela está presente em diferentes situações e pode variar, por exemplo,
entre homem e mulher, criança e adulto, entre classes sociais diferentes ou ainda na
linguagem gestual.
Um bom exemplo das diferenças entre variedades da mesma língua é o caso do
português lusitano e o português brasileiro. Com freqüência, obras contemporâneas,
protegidas por direitos autorais e que em princípio poderiam ter uma só tradução, têm
duas traduções, uma em português de Portugal e outra em português do Brasil. É o que
aconteceu com o próprio livro Depois de Babel, de George Steiner, como para ilustrar o
que ele defende no livro. Em 2002 a editora portuguesa Relógio d’Água publicou uma
tradução para leitores portugueses e em 2005 a editora da UFPR publicou uma tradução
para leitores brasileiros.
Embora algumas traduções portuguesas circulem no Brasil e algumas brasileiras
circulem em Portugal, a tendência atual das editoras é apresentar traduções separadas
para o mercado português e brasileiro. Em conseqüência, os editores internacionais
costumam vender os direitos autorais para portugueses e brasileiros separadamente.
Assim, as Obras completas do escritor argentino Jorge Luis Borges têm uma edição em
Portugal e outra no Brasil.
O que é válido dentro da língua é também válido entre os diferentes sistemas
semióticos e podemos, portanto, falar de tradução quando um texto é adaptado ao
cinema, ao vídeo ou à história em quadrinhos, ou quando um poema é musicado. Esse
tipo de tradução, olhado com suspeição maior do que a que costuma haver contra a
tradução verbal, atrai cada vez mais o interesse dos pesquisadores.
A multiplicação das línguas humanas ocorreu também nas línguas humanas de
sinais, tão antigas quanto as línguas baseadas orais-auditivas. Contrariamente ao que se
poderia pensar, não há uma língua universal de sinais e tampouco há uma
correspondência entre línguas de sinais e línguas verbais. Assim, a Língua Norte-
Americana de Sinais é usada nos Estados Unidos, Canadá e México e cobre, portanto,
as várias línguas faladas nos territórios desses países. Por outro lado, a Língua Britânica
de Sinais difere da Língua Norte-americana de Sinais, embora a Grã-Bretanha e os
Estados Unidos compartilhem a mesma língua natural, o inglês.
As variações podem ser ilustradas pela palavra mãe, bastante freqüente em todas
as línguas de sinais.
Língua holandesa de sinais Língua norte-americana de sinais
Houve várias tentativas para contornar a existência de tantas línguas diferentes no
mundo através da invenção de idiomas universais, especialmente concebidos para
facilitar a comunicação entre os homens. A mais famosa dessas línguas artificiais é o
esperanto, que tem seus defensores em todos os países, sem, no entanto, ter conseguido
uma adesão suficiente para se impor como uma língua universal. Nas línguas de sinais,
houve também a invenção de uma língua universal. Trata-se do Gestuno (pronuncia-se
guestuno, como na palavra Guevara). O Gestuno, que vem do italiano, não é
considerada propriamente uma língua por não possuir uma gramática. Os sinais são
utilizados com a gramática de qualquer uma das línguas de sinais existentes. É utilizada
em reuniões internacionais de surdos.
A tradução entre as diferentes línguas verbais e as diferentes línguas de sinais
não só é possível, como é vista atualmente como um direito de cidadania dos surdos.
Como visto, a tradução tem sido definida de várias maneiras. É um termo
multifacetado e são muitos os autores que têm se dedicado ao assunto. De acordo com
Jeremy Munday, esta diversidade pode ser vista tanto quando se discute os aspectos
gerais do campo tradução; o produto (o texto traduzido) ou o processo (a ato de traduzir
e a tradução em si) (2001: 4-5).
Do exposto acima, podemos afirmar, em concordância com Susan Bassnett, que a
tradução não é somente a transferência de textos de uma língua para outra – ela é hoje
corretamente vista como um processo de negociação entre textos e entre culturas, um
processo em que ocorrem todos os tipos de transações mediadas pela figura do tradutor
(2003: 9). Essa mesma idéia vai ser enfatizada por Umberto Eco quando ele assevera:
“uma tradução não diz respeito apenas a uma passagem entre duas línguas, mas entre
duas culturas, ou duas enciclopédias. Um tradutor não deve levar em conta somente as
regras estritamente lingüísticas, mas também os elementos culturais, no sentido mais
amplo do termo” (2007: 190). E podemos ampliar as afirmações dizendo que o mesmo
vale para quando temos casos de tradução na mesma língua e entre sistemas semióticos
diferentes, mas sobre isso vamos falar a seguir.
TIPOS DE TRADUÇÃO
Nesta parte, vamos tratar dos diferentes tipos de tradução a partir da clássica divisão
proposta por Roman Jakobson4: tradução intralingual, interlingual e intersemiótica.
Além disso, ao longo desta unidade, vamos discutir os diferentes tipos de tradução
através da abordagem de diversos teóricos até chegar à tradução automática.
Para Roman Jakobson, existem três tipos de tradução:
1) A tradução intralingual, ou reformulação, consiste na interpretação dos
signos verbais por meio de outros signos da mesma língua.
2) A tradução interlingual, ou tradução propriamente dita, consiste na
interpretação dos signos verbais por meio de alguma outra língua.
3) A tradução intersemiótica, ou transmutação, consiste na interpretação dos
signos verbais por meio de sistemas de signos não-verbais (1975: 64-5).
A tradução intralingual engloba o texto de partida, o leitor-textualizador e o
texto de chegada. Segundo Jakobson, “a tradução intralingual de uma palavra utiliza
outra palavra, mais ou menos sinônima, ou recorre a um circunlóquio. Entretanto, via de
regra, quem diz sinonímia não diz equivalência completa [...]” (1975: 65). Aliás, nem a
aparente sinonímia produz equivalência, pois para Susan Bassnett “a tradução
intralingüística tem de recorrer com freqüência a uma combinação de unidades de
código de forma a interpretar cabalmente o sentido de uma simples unidade” (2003: 37-
8). É por isso, segundo ainda Bassnett, que
um dicionário de sinônimos pode indicar perfeito como sinónimo de ideal e veículo como
sinónimo de transporte, mas não se pode dizer em nenhum dos casos que se produz
4 www.pucsp.br/pos/cos/cultura/biojakob.htm
completa equivalência, uma vez que cada unidade contém em si um conjunto de
associações e conotações não-transferíveis (2003: 38).
A tradução intralingual acontece, por exemplo, quando um texto do passado, como
Os Lusíadas5, de Luís de Camões, é lido por um leitor atual da mesma língua, ou
quando um texto do presente, mas particularmente complexo, como Finnegans Wake6
do irlandês James Joyce e o Grande Sertão Veredas de Guimarães Rosa é lido por um
leitor atual. No primeiro caso, acontece o que Steiner chama de tradução diacrônica no
interior da própria língua, que, para ele é um fenômeno “tão constante, nós a
realizamos tão inconscientemente que raramente paramos para observar seja sua
complexidade formal, seja o papel decisivo que ela exerce na própria existência da
civilização” (2005: 54). O segundo caso, quando explicamos para nós mesmos um texto
complexo, remete a uma experiência que realizamos todos os dias, e não apenas em
textos literários, e que Paulo Rónai caracteriza da seguinte forma:
ao vazarmos em palavras um conteúdo que em nosso pensamento existia apenas em estado
de nebulosa, fenômeno constante em todos os momentos conscientes da vida, estamos
também traduzindo, mas praticamos a tradução intralingual, operação esta que tem as
próprias dificuldades e cujo resultado muitas vezes nos deixa insatisfeitos (1976: 1).
As diferentes camadas das sociedades humanas também costumam usar um
idioma diferente, embora a diferença varie bastante de sociedade para sociedade.
Exemplos não faltam: há comunidades que usam uma língua para a religião, outra para
o governo, outra para literatura, outra para a comunicação do cotidiano.
Na época do descobrimento do Brasil, por exemplo, os índios falavam a sua
língua, que era oral, pois não se tinham registros de escrita, os colonizadores outra.
Índios e colonizadores se comunicaram primeiro com gestos e, mais tarde, em uma
língua franca, o nheengatu, língua geral que se originou de uma língua do tronco tupi
falada no litoral brasileiro e que se difundiu na região amazônica. O nheengatu era
largamente usado pelos colonizadores no Brasil até o século XVIII (ver a este respeito
Raízes do Brasil de Sérgio Buarque de Holanda, Rio de Janeiro: José Olympio, 1973,
pp. 88-96).
Já quando se trata de classes sociais diferentes, o problema também se coloca:
basta pensar no discurso entre o operário de uma fábrica e o patrão. Esta relação de falta
5 http://www.instituto-camoes.pt/cvc/bvc/lusiadas/index.html
6 http://www2.folha.uol.com.br/biblioteca/1/22/1999111301.html
de comunicação e compreensão entre o operário e o patrão já foi metaforicamente
ilustrada, por exemplo, no famoso poema de Vinicius de Moraes “Operário em
construção”. Veja aqui o poema7.
A tradução intralingual também se faz presente entre a língua usada pela criança e
a do adulto e a usada pelo homem e a da mulher. Até bem pouco tempo atrás, esses dois
grupos foram discriminados e mantidos numa condição de inferioridade, às vezes
combinada com certos privilégios. Nessa situação, em certas sociedades surgiram
linguagens diferenciadas, típicas desses dois mundos. Mas para alguns autores, como
Steiner, a diferença está inserida no centro mesmo da linguagem:
Não há duas épocas históricas, duas classes sociais, duas localidades que
usem as palavras e a sintaxe para expressar as mesmas coisas [...]. Nem dois
seres humanos. Cada uma das pessoas se serve, deliberadamente ou por
costume espontâneo, de duas fontes de suprimento lingüístico: a língua
corrente que corresponde a seu grau de letramento e um tesouro privado.
[...] A língua de uma comunidade, por mais uniformes que sejam seus
contornos sociais, é um agregado inesgotavelmente múltiplo de átomos de
fala, de significados pessoais em último caso irredutíveis (2005: 70-1).
Junto com uma língua comum a uma dada comunidade, teríamos, portanto,
inevitavelmente, um grande leque de variantes segundo, a época histórica, a localização
geográfica, a classe social, a faixa etária, até chegar ao próprio indivíduo.
Os conceitos de compreensão e interpretação são, portanto, palavras-chave no
fenômeno da tradução intralingual. Mesmo quando nos limitamos a uma única língua,
estamos em um universo altamente complexo e em constante mutação. Por isso, Steiner
afirma que a operação tradutória intralingual está presente sempre, em todos os tipos de
texto, independentemente de sua relevância cultural ou estética:
quando lemos ou ouvimos qualquer enunciado verbal do passado, seja saído do Levítico ou do
best seller8 do último ano, nós traduzimos. Leitor, ator, editor são tradutores de eventos
lingüísticos fora de sua época. O modelo esquemático da tradução é aquele no qual uma
mensagem passa de uma língua de saída para uma língua de chegada por meio de um processo
transformador. A barreira é o fato óbvio de que uma língua difere da outra, de que uma
transferência interpretativa deve ocorrer de modo a garantir que a mensagem “passe”.
Exatamente o mesmo modelo - e isto raramente recebe o devido destaque – está em
funcionamento no interior de uma única língua (2005: 53).
Após definir e abordar aspectos da tradução intralingual, agora vamos refletir
sobre outro tipo de tradução: a interlingual.
7 http://www.astormentas.com/vinicius.htm
8 Livro que é um sucesso de livraria, que vende muito.
A tradução interlingual engloba texto de partida, tradutor e texto de chegada.
É o tradutor, através de uma operação em que atua simultaneamente como leitor,
intérprete e textualizador, que produz o texto de chegada em um código 2 através da
leitura e interpretação do texto de partida em um código 1. Para Jakobson,
no nível da tradução interlingual, não há comumente equivalência completa entre as unidades
de código, ao passo que as mensagens podem servir como interpretações adequadas das
unidades de código ou mensagens estrangeiras [...]. Mais freqüentemente, entretanto, ao
traduzir de uma língua para outra, substituem-se mensagens em uma das línguas, não por
unidades de códigos separadas, mas por mensagens inteiras de outra língua. Tal tradução é
uma forma de discurso indireto: o tradutor recodifica e transmite uma mensagem recebida de
outra fonte. Assim, a tradução envolve duas mensagens equivalentes em dois códigos
diferentes (1975: 65).
Como o tradutor interlingual trabalha com línguas diferentes, a tradução
interlingual pode ser considerada, como diz Georges Mounin em Os problemas teóricos
da tradução como “um fato de bilingüismo” (1965: 6).
Todos os tipos de texto podem ser submetidos a uma tradução interlingual: dos
técnicos aos literários, passando pelos esportivos, religiosos e políticos, em uma riqueza
tal que com freqüência não avaliamos bem sua importância. Na prática, a própria
existência da civilização humana em escala mundial depende muito da tradução
contínua desses diferentes tipos de texto. O que era visível apenas para os interessados
no assunto, ficou mais claro com o surgimento e expansão da internet, pois agora
existem online milhões de documentos em quase todas as línguas e uma boa parte dessa
enorme massa textual é, de uma ou outra forma, tradução.
No Brasil, por exemplo, calcula-se que a tradução interlingual representa cerca de
60 a 80% dos textos publicados e que 75% do saber científico e tecnológico provém das
traduções, alimentando vários setores da vida nacional. Sem a tradução, muitos setores
simplesmente não funcionariam, como por exemplo, o de softwares, medicamentos,
automobilístico etc.
A tradução interlingual, sobretudo a tradução literária, recebeu sempre a atenção
dos escritores e críticos. No Ocidente, os primeiros grandes pensadores da tradução
foram romanos, e não por acaso, já que a civilização romana é, em grande parte, o
produto de um projeto consciente de tradução e adaptação da civilização grega antiga.
Cícero (106 a. C - 43 a. C) e Horácio (65 a. C- 8 a. C) foram os primeiros a
estabelecer a distinção entre “tradução literal” e “tradução do sentido”, distinção que
salta naturalmente aos olhos de qualquer observador do fenômeno tradutório. Para
ambos, preocupados em criar uma cultura romana, não se deve traduzir palavra por
palavra, mas o sentido; no caso o sentido textualizado pelos gregos deveria, para eles,
receber uma coloração romana.
A propósito de Cícero e Horácio, Bassnett observa que:
As posições de Cícero e Horácio sobre tradução tiveram grande influência em gerações sucessivas
de tradutores e ambos entendem a tradução dentro do contexto alargado das duas funções
principais do poeta: o dever humano universal de adquirir e disseminar a sabedoria, e a arte
especial de fazer e dar forma ao poema (2003: 81).
Se a ênfase de Cícero e Horácio era no texto de chegada para o enriquecimento da
língua e da literatura latina, com a tradução da Bíblia, por exemplo, temos uma
mudança de foco e a preocupação era com o texto de partida, pois o objetivo era o de
“espalhar a palavra de Deus” e estar o mais próximo possível da palavra divina.
Por isso, as religiões, especialmente as religiões de tipo universalista, sempre
lidaram com a tradução, elemento-chave para sua expansão entre os diferentes povos.
Entre elas, talvez a que mais se dedicou às questões de tradução foi o cristianismo. De
fato, a tradução da Bíblia constitui um dos mais ricos capítulos da história da tradução,
com momentos sublimes, dramáticos e trágicos.
Já no terceiro século a.C., quando o grego era a língua franca, eruditos judeus
começaram a traduzir a bíblia hebraica ao grego, trabalho que só se completaria um
século mais tarde. A tradição, contudo, era que cada uma das 12 tribos de Israel tinha
contribuído com seis eruditos para o projeto do que viria a ser conhecido como a
Septuaginta. Com a propagação do cristianismo novas traduções foram feitas para o
copta9, o etíope, gótico10 e, o que foi crucial, para o latim. Em 1405, São Jerônimo
completou sua tradução, baseada em parte na Septuaginta11. Apesar dos erros inseridos
por copistas, a Vulgata, como passou a ser conhecida a versão jeronimiana, se
9 Língua do ramo egípcio, cujas primeiras atestações datam do séc. II, e que é, atualmente, usada apenas
como língua religiosa pelos cristãos do Egito.
10 Língua dos godos, povo antigo da Germânia, que do séc. III ao V invadiu os impérios romanos do
Ocidente e do Oriente. Dividiam-se em ostrogodos (godos do Leste) e visigodos (godos do Oeste).
11 Septuaginta é o nome de uma tradução da Torá, (Escrituras Hebraicas) para o idioma grego, feita no
século III a.C..
transformou na tradução de referência do cristianismo ocidental, posto que manteve por
cerca de um milênio.
Em relação ao número de traduções, a Bíblia também impressiona. Se em 1450
havia já 33 diferentes traduções, e em 1800 esse número tinha saltado para 71, no final
do século XX, havia edições integrais em mais de 250 línguas e edições parciais em
cerca de 1300 outras línguas.
Como não podia deixar de ser quando se trata de tradução, a tradução bíblica
trouxe novamente à tona a discussão da oposição tradução literal versus tradução livre.
São Jerônimo, o patrono dos tradutores, ao traduzir o Novo Testamento, diz ter optado
por traduzir o sentido e não palavra por palavra.
Curiosamente, na umbanda, São Jerônimo é o sincretismo de Xangô 12por haver
traduzido a Bíblia e ser, portanto conhecedor das leis, o que vem demonstrar a
importância e o poder da tradução, aqui vista como instrumento de acesso ao saber. São
Jerônimo também foi um dos primeiros a se preocupar com os surdos ao afirmar em
Commentarius in epistulam Pauli ad Gálatas I,3 que “os surdos podem aprender o
Evangelho através dos sinais”. Este é o primeiro documento que cita os sinais como
meio para a instrução dos surdos.
Lutero, o tradutor da Bíblia para o alemão, também se preocupava com o
sentido, mas enfatizava o estilo do texto, com ênfase na ligação entre a língua da
tradução e a língua falada. Para que os seus seguidores pudessem ter acesso direto às
Escrituras, estas tinham que estar escritas em uma linguagem atraente e próxima à
língua de todos os dias.
Essa preocupação com a beleza da língua e com a proximidade com a língua oral
vai caracterizar várias traduções protestantes da Bíblia. A mais célebre de todas, do
ponto de vista estético, é a chamada King James Version, ou Bíblia do Rei Jaime,
verdadeiro monumento literário reivindicado por intelectuais e artistas, apesar de estar
escrito em uma língua da qual o inglês contemporâneo se afastou em muitos aspectos.
12 http://pt.wikipedia.org/wiki/Xang%C3%B4
Depois da tradução religiosa, que representa, de acordo com Bassnett, “um
microcosmos13 da história da cultura ocidental” (2003: 85), foi a tradução literária que
mais produziu textos de cunho crítico e teórico.
Por isso, vamos conhecer autores que refletiram sobre o assunto, cujas
contribuições ainda hoje permanecem válidas. Um dos primeiros escritores a
desenvolver uma teoria da tradução foi o humanista francês Etienne Dolet (1509-1546).
Em “A maneira de bem traduzir de uma língua para outra” (1540), Dolet estabeleceu
cinco princípios para o tradutor:
1. o tradutor deve entender perfeitamente o sentido e a matéria do autor a ser
traduzido;
2. o tradutor deve conhecer perfeitamente a língua do autor que ele traduz; e
que ele seja igualmente excelente na língua na qual se propõe traduzir;
3. o tradutor não deve traduzir palavra por palavra;
4. o tradutor deve usar palavras de uso corrente;
5. o tradutor deve observar a harmonia do discurso (2004: 15-9).
Segundo Bassnett,
os princípios assim preconizados e hierarquizados por Dolet acentuam a importância da
compreensão do texto de partida como requisito fundamental. O tradutor é muito mais do
que um lingüista competente e a tradução envolve uma aproximação ao texto de partida
com conhecimento de causa e com sensibilidade, bem como a percepção do lugar que a
tradução pretende ocupar no sistema da língua de chegada (2003: 98).
Se Dolet foi um dos primeiros a tratar de maneira mais sistematizada questões
referentes à tradução interlingual, a discussão da tradução passa, a partir do
Renascimento, a ser um dos tópicos da cultura do Ocidente, e muitos outros o
seguiram.
É o caso de Dryden (1631-1700) que, no seu Prefácio às Cartas de Ovídio
(1680), propõe três tipos de tradução: 1) Metáfrase: verter palavra por palavra; 2)
Paráfrase: tradução do sentido; 3) Imitação: recriação. Para Dryden, o método mais
13 Mundo pequeno, resumo do Universo.
sensato para as traduções é a paráfrase, porque esta via intermediária permite uma
leitura atenta do original para detectar as minúcias do estilo e da forma do texto a ser
traduzido.
Um outro autor de língua inglesa, Alexander Fraser Tytler (1747–1813)
também trabalha com a tripartição dos aspectos concernentes à tradução. Em 1791,
Tytler escreve The principles of translation [Os princípios da tradução] e defende
três princípios: 1) a tradução deve fazer uma transcrição completa da idéia da obra
original; 2) o estilo e o modo da escrita devem ser os mesmos do original; 3) a
tradução deve conservar toda a naturalidade do original.
Já o alemão Friedrich Schleiermacher (1768-1834) em seu importante ensaio
intitulado “Sobre os diferentes métodos de tradução”, de 1813, discute duas
possibilidades em relação à tradução:
1. ou o tradutor deixa o autor em paz e leva o leitor até ele;
2. ou o tradutor deixa o leitor em paz e leva o autor até ele.
Esta idéia será mais tarde retomada de maneira mais filosófica por Walter
Benjamin (filósofo alemão, autor de um famoso ensaio sobre tradução: “A tarefa do
tradutor”) e de modo mais ideológico por Lawrence Venuti (tradutor e teórico da
tradução ítalo-americano), que empregará, na avaliação das traduções, as expressões
“tradução estrangeirizadora” “tradução domesticadora”, de clara inspiração
schleiermacheriana. Os diferentes métodos de Schleiermacher também parecem ter
servido de fonte para as reflexões sobre tradução de Paulo Rónai discutidas na
unidade 1, quando ele fala de “tradução naturalizadora” e tradução identificadora”. A
tradução naturalizadora estaria ligada ao segundo tipo de tradução proposto pelo
hermeneuta alemão e a tradução identificadora ao primeiro método.
Diante desta variedade de teorizações, vamos agora ver como o professor, crítico e
teórico George Steiner agrupa as teorias da tradução.
Para ele, a produção teórica ocidental sobre o assunto pode ser dividida em quatro
grandes períodos:
1) o primeiro caracteriza-se como o mais empírico e abarcaria de 46 a. C. a
1804, isto é, de Cicero a Hölderlin. Entre essas duas datas, figuram São
Jerônimo, Leonardo Bruni, Montaigne, Dryden entre outros;
2) o segundo período, de teoria e investigação hermenêutica, dá ao problema da
tradução um caráter mais filosófico, iniciando-se com os escritos de Tytler e
Schleiermacher passando por Schlegel e Humboldt. Já os textos de Goethe,
Schopenhauer, Paul Valéry, Pound, Croce, Benjamin e Ortega y Gasset refletem
as descrições da atividade do tradutor e das relações entre as línguas. Essa época
comporta uma historiografia da tradução e se estende até Valery Larbaud
(1946);
3) o terceiro momento é o da corrente moderna. No final da década de 40
aparecem artigos sobre tradução automática (que vamos ver a seguir). Os
pesquisadores russos e tchecos aplicam a teoria lingüística e os métodos
estatísticos à tradução;
4) no quarto momento, por volta da década de 60, há o redescobrimento de A
tarefa do tradutor, texto de Walter Benjamin, publicado em 1923, que dará nova
vida aos estudos hermenêuticos, quase filosóficos, sobre a tradução e a
interpretação. Decai a confiança que inspirava a tradução automática. Nessa
época, o estudo da teoria e da prática da tradução torna-se interdisciplinar, com
contribuições, entre outros, da psicologia, antropologia, sociologia e etnografia.
Assim, a filologia clássica, a literatura comparada, a estatística lexical e
etnográfica, a sociolingüística, a retórica formal, a poética e o estudo da
gramática confluem no propósito de esclarecer o ato de tradução e os
mecanismos da “vida entre as línguas” (2005: 259-262).
Como se pode perceber, muito se falou sobre a tradução entre línguas diferentes e,
grosso modo, a teoria sobre o assunto debate: 1) tradução literal; 2) tradução
intermediária, que se dá com a ajuda de um enunciado que procura ser fiel e, no
entanto, autônoma; 3) imitação, recriação, variação ou interpretação paralela.
Steiner vai observar, por exemplo, que embora a história da tradução seja muito rica,
o número de idéias originais e significativas sobre o assunto permanece limitado,
porque as reflexões sempre tendem a falar ou da tradução literal, ou da tradução livre
(200: 263).
Mas há autores como Jorge Luis Borges, por exemplo, que vai além desse tipo de
classificação e dá uma nova dimensão à tradução, valorizando-a por contribuir para a
discussão estética. Na concepção borgiana, as traduções são vistas não apenas como
derivadas de um original necessariamente superior, mas como atualizações do original
que podem, eventualmente, ser tão ou mais significativas do que este. Assim, um
conjunto de traduções realizadas para diferentes línguas pertencentes a sistemas
literários sofisticados pode ser representar para seu leitor mais riqueza estética do que
para o leitor monolingüe do original. Borges ilustra o aparente paradoxo de as traduções
oferecerem mais prazer estético que o original, dizendo que pelo fato de não conhecer
grego, pôde ler a Odisséia14 em várias traduções para diferentes línguas. Para Borges,
que era um grande conhecedor de línguas estrangeiras, a sua leitura de um conjunto de
Odisséias em inglês, francês, alemão, representando diferentes estilos e épocas,
constituiu uma experiência literária mais rica do que sua leitura de Dom Quixote15 feita
apenas em espanhol.
A tradução interlingual também serve como exercício de escrita e como meio de
desenvolver e/ou aprimorar o próprio estilo. Aliás, muitos escritores como, por
exemplo, o italiano Giacomo Leopardi (1798-1837) defende a prática da tradução para
o escritor iniciante. É traduzindo que se aprende a compor com estilo. Convém frisar
que quando Leopardi fala que é traduzindo que se aprende a escrever, ele se refere à
tradução de excelentes autores clássicos gregos e latinos, como Homero, Virgílio e
Horácio. Mas no caso de ser escritor e escrever bem, a probabilidade de uma boa
tradução é bastante alta, pois a tradução de qualidade é obra do escritor maduro. Assim,
14 Poema do grego Homero (v. homérico), cujo assunto são as aventuras de Ulisses ao retornar à pátria,
após a tomada de Tróia.
15 Poema do grego Homero (v. homérico), cujo assunto são as aventuras de Ulisses ao retornar à pátria,
após a tomada de Tróia.
em uma de suas primeiras observações sobre tradução, que se encontra numa carta de
29 de dezembro de 1817 endereçada ao amigo e escritor Pietro Giordani, ele diz:
[...] dou-me conta de que traduzir, assim por exercício, deve realmente preceder a atividade de
compor, sendo útil e necessário para os que querem tornar-se escritores insignes; mas para
tornar-se um grande tradutor convém antes haver composto e ter sido bom escritor: enfim,
uma tradução perfeita é obra mais da maturidade que da juventude (1996: 730).
Como se pode perceber, Leopardi coloca a prática da tradução como requisito
para se tornar um bom escritor, porque para o escritor italiano, a tradução possibilita
o mais íntimo e profundo contato com determinados textos literários, com suas
formas, mas também com o conteúdo das obras dos escritores que estão sendo
traduzidos.
Com essas idéias, Leopardi lança as bases da relevância do traduzir, estabelecendo
a relação tradutor-escritor e escritor-tradutor, afirmando que somente um bom escritor
pode ser um bom tradutor. Claro que esta idéia pode ser contestada e há muitos autores
que defenderam uma ou outra posição, embora a balança pareça pender mais para o lado
de Leopardi.
Ademais, para o escritor italiano, o tradutor é um leitor privilegiado, pois a
tradução é a melhor forma de aprofundar uma leitura. Essa parece ser, em parte, idéia
corrente entre autores como Haroldo de Campos. Contudo, o poeta brasileiro, ancorado
nas teorias de Jakobson e do poeta, músico e crítico americano Erza Pound (1885-
1972), Haroldo trabalha com o conceito de recriação na tradução poética. Haroldo vê a
tradução como uma possibilidade de criação e também de crítica. A tradução de textos
criativos sempre será para Haroldo de Campos “recriação”, ou criação paralela. Por
isso, quanto mais repleto de dificuldades um texto, mais recriável, mais sedutor
enquanto possibilidade aberta de recriação (2004: 35). Você também pode encontrar
mais informações sobre o autor visitando o seu site16.
Na linha da recriação, pois ancorado no fato da impossibilidade da completa
equivalência, Jakobson declara, principalmente em relação à poesia, que:
Apenas a transposição criativa é possível: seja a transposição intralingüística – de uma forma
poética para outra, seja a transposição interlingüística – de uma língua para outra, ou, finalmente, a
16 www.haroldodecampos.com.br
transposição intersemiótica – de um sistema de signos para outro, por exemplo, da arte verbal para
a música, dança, cinema ou pintura (1975: 72).
August Willemsen, tradutor para o holandês de autores como Machado de Assis e
Guimarães Rosa tem uma posição que vale a pena considerar. Estando em
Florianópolis, em outubro de 1984, ele proferiu, na Pós-Graduação de Literatura da
UFSC, uma palestra que foi posteriormente publicada no primeiro número da revista
Fragmentos do LLE/UFSC. Nessa palestra ele declarou o seguinte:
O tradutor tem de conhecer o país do escritor, até a região ou cidade do escritor e as
particularidades lingüísticas correspondentes. Tem de saber sobre a época do escritor, a história e a
literatura de seu país, bem como a eventual tradição literária em que se situa o escritor. Não adianta
ter lido só o livro que pretende traduzir, pois acho que não se deve traduzir um livro, mas um
escritor, mesmo que dele se traduza só uma obra. É preciso saber o que o autor leu, quais as suas
preferências literárias, o que se escreveu a seu respeito. E preciso saber como as pessoas de seu
país convivem, quais as relações entre homem e mulher, qual o cheiro do país, não só o cheiro de
arquivos, bibliotecas e livrarias, mas também o cheiro das ruas, das pessoas, da comida, da bebida,
tudo. (Fragmentos 1)
Essa tradução totalizadora, preconizada por Willemsen, em que o tradutor conhece
não apenas o texto a traduzir mas todos os textos do autor, a crítica, sua biografia,
seu país é, evidentemente, excepcional e exige um grau de dedicação impossível para
a maioria dos tradutores profissionais. Aplicada de forma sistemática e sensível, ela
pode ser responsável por traduções de alta qualidade, como as do próprio Willemsen,
na Holanda, e no Brasil traduções como as realizadas por Boris Schnaiderman do
russo.
Como visto até agora, muitos autores discutiram sobre o assunto ao longo dos anos e,
com o reconhecimento da tradução como disciplina acadêmica no início dos anos 80 do
século XX, muitas correntes foram se desenvolvendo, como por exemplo: as teorias
sobre equivalência e comparações entre línguas; as teorias funcionalistas; as abordagens
discursivas; os estudos descritivos e normas; a teoria do polissistema; os estudos de
corpus; os estudos culturais e a abordagem interdisciplinar, em que lingüística, filosofia
etc se interligam. Exemplos de tradução interlingual são infinitos. Abaixo seguem
alguns fragmentos de importantes textos traduzidos para o português do Brasil. O
primeiro é um trecho do Capítulo XXIII do Satyricon17, de Petrônio, escrito em latim e
17 Satiricon é uma obra da Literatura latina, do prosador romano Petrônio, escrita provavelmente cerca de
60 DC, que descreve as aventuras e desventuras do narrador, Encolpius, do seu amante Ascyltus e do
belíssimo jovem Giton, que se intromete entre os dois amantes provocando ciúme e discussão.
Juntamente com o poeta Eumolpus embarcam em aventuras diversas acabando naufragados nas mão de
Circe, uma sacerdotisa do deus Príapo.
com tradução para o português do Brasil de Paulo Leminski. (ver
http://paginas.terra.com.br/arte/PopBox/kamiquase/ensaio37.htm.
Refectum igitur est
convivium et rursus
Quartilla ad bibendum
revocavit. Adiuvit
hilaritatem comissantis
cymbalistria.Intrat
cinaedus, homo omnium
insulsissimus et plane illa
domo dignus, qui ut
infractis manibus
congemuit, eiusmodi
carmina effudit:
A festa recomeça, e
Quartila chama todo
mundo para recomeçar a
beber, ao alegre som da
cymbalistria. Entra um
dançarino completamente
bicha, como, aliás, tudo
naquela casa, e, batendo
as mãos para marcar o
ritmo, largou um poema
que dizia assim:
Huc huc convenite
nunc, spatalocinaedi,
Vem comigo, vem
comigo,
pede tendite, cursum
addite, convolate planta,
Vocês que gozam pelos
cinco sentidos,
femore facili, clune agili
et manu procaces,
Pezinho pra frente,
bundinha pra trás,
molles, veteres, Deliaci
manu recisi
Delírios e delícias
orientais.
O segundo um fragmento de “Albertina desaparecida”, de Marcel Proust, escrito em
francês com tradução brasileira de Ivan Junqueira:
Chapitre premier
(fragment)
Capítulo primeiro
(fragmento)
Le plus pressé était de lire la letre
d'Albertine puisque je voulais aviser aux moyens
de la faire revenir. Je les sentais en ma
possession, parce que, comme l'avenir est ce qui
n'existe encore que dans notre pensée, il nous
semble encore modifiable par l'intervention in
extremis de notre volonté. Mais en même temps
je me rappelais que j'avais vu agir sur lui d'autres
forces que la mienne et contre lesquelles, plus de
temps m'eût été donné, je n'aurais rien pu. À quoi
sert que l'heure n'ait pas sonné encore si nous ne
pouvons rien sur ce qui s'y produira. Quand
Albertine était à la maison j'étais bien décidé à
garder l'initiative de notre séraration. Et puis elle
était partie. J'ouvris la lettre d'Albertine. Elle était
ainsi conçue:
O mais urgente era ler a carta de Albertina,
pois queria descobrir os meios de fazê-la
regressar. Sentia-os em meu poder porque, como
o futuro é aquilo que existe apenas em nosso
pensamento, ele nos parece ainda capaz de ser
alterado pela intervenção in extremis de nossa
vontade. Mas ao mesmo tempo eu me lembrava
de que vira atuar sobre ele outras forças além da
minha e contra as quais, por mais tempo que me
concedessem, eu nada teria podido. De que
adianta não haver ainda soada a hora, se nada
podemos contra o que acontecerá? Quando
Albertina ainda vivia em minha casa, fui eu que
decidi tomar a iniciativa de nos separarmos. E em
seguida ela partiu. Abri sua carta. Estava escrito:
Mon ami, pardonnez-moi de ne pas avoir
osé vous dire de vive voix les quelques mots qui
vont suivre, mais je suis si lâche, j'ai toujours eu
si peur devant vous, que, même en me forçant, je
n'ai pas eu le courage de le faire. Voici ce que
j'aurais dû vous dire: Entre nous, la vie est
devenue impossible, vous avez d'ailleurs vu par
votre algarade de l'autre soir qu'il y avait quelque
chose de changé dans nos rapports. Ce qui a pu
s'arranger cette nuit-là deviendrait irréparable
dans quelques jours. Il vaut donc mieux, puisque
nous avons eu la chance de nous réconcilier, nous
quitter bons amis; c'est pourquoi, mon chéri, je
vous envoie ce mot, et je vous prie d'être assez
bon pour me pardonner si je vous fais un peu de
chagrin, en pensant à l'immense que j'aurai. Mon
cher grand, je ne veux pas devenir votre ennemie,
il me sera déjà assez dur de vous devenir peu à
peu, et bien vite, indifférente; aussi ma décision
étant irrévocable, avant de vous faire remettre
cette lettre par Françoise, je lui aurai demandé
mes malles. Adieu, je vous laisse lê meilleur de
moi-même. Albertine.
"Meu amigo, perdoe-me por não haver
ousado lhe dizer de viva voz as palavras que se
seguem, mas sou tão covarde, sinto-me sempre
com medo diante de você, que, mesmo me
esforçando, tive coragem de fazê-lo. Eis o que
lhe deveria ter dito: a vida entre nós tornou-se
impossível; aliás, você decerto percebeu por seu
falatório da outra noite que algo mudou em
nossas relações. O que se pôde ajeitar naquela
noite se tornaria irreparável poucos dias depois. É
melhor assim, pois tivemos a oportunidade de
nos reconciliar, de nos separar como bons
amigos; por isso, meu querido, é que lhe escrevo
essas palavras e rogo a você que seja bom o
bastante para perdoar-me se lhe causo algum
desgosto, imaginando o imenso que terei. Meu
querido, não quero tornar-me sua inimiga; já me
será muito penoso tornar-me pouco a pouco, e
bem depressa, indiferente a você; minha decisão
é irrevogável e, antes de lhe enviar esta carta por
intermédio de Francisca, terei pedido a ela
minhas malas. Adeus, deixo-lhe o melhor de mim
mesma. Albertina."
E o terceiro é a tradução para o português do Brasil de Haroldo de Campos de um
poema da Vida Nova de Dante Alighieri, escrito em italiano:
Excerto
A ciascun’alma presa e gentil core
nel cui cospetto ven lo dir presente,
in ciò che mi rescrivan suo parvente,
salute in lor segnor, cioè Amore.
Già eran quasi che atterzate l’ore
del tempo che onne stella n’è lucente,
quando m’apparve Amor subitamente,
cui essenza membrar mi dà orrore.
Allegro mi sembrava Amor tenendo
meo core in mano, e ne le braccia avea
madonna involta in un drappo dormendo.
Poi la svegliava, e d’esto core ardendo
lei paventosa umilmente pascea:
appresso gir lo ne vedea piangendo
Ao coração gentil, de Amor cativo,
ao qual este meu texto se apresente,
a quem o reescreva e o transparente,
venho saudar, e ao seu Senhor altivo.
Para além da hora terça o tempo esquivo
corria no estelário reluzente,
quando Amor me surgiu subitamente
e o horror, no seu aspecto, lembro, vivo.
Alegrava-se Amor, pois exibia
meu coração nas mãos: dama formosa
num manto em seu regaço adormecia.
E a despertava, e o coração que ardia
dava Amor de comer à temerosa.
Depois, como chorando, Amor fugia.
A tradução entre línguas diferentes proporciona a construção de um enorme
patrimônio cultural, basta pensar em Cícero e o seu projeto de tradução em massa da
literatura grega, ou ainda do projeto de tradução realizado pelos alemães no século XIX.
Nesse sentido, Madame de Stäel (1766-1817). Conheça um pouco da sua biografia18.
Em seu famoso ensaio “Do espírito das traduções” (1821) convida todos os países a
traduzir, porque segundo ela:
Não há mais eminente serviço que se possa prestar à literatura do que transpor de uma língua
para outra as obras-primas do espírito humano. Existem tão poucas produções de primeira
ordem; o gênio, em qualquer área que seja, é um fenômeno tão raro, que se cada nação
moderna fosse reduzida a seus próprios tesouros, seria sempre pobre (2004: 141).
Vale ainda ressaltar, antes de finalizarmos esta unidade, que uma das maiores
discussões, como visto, no campo da tradução interlingual é a famosa polêmica
entre tradução livre e tradução literal. Paulo Rónai em Escola de Tradutores,
observa que “Pensa-se geralmente que a tradução fiel é a tradução literal, e que,
portanto, qualquer tradução que não seja literal é livre. [...]” (1987: 20). Rónai
prossegue afirmando que:
Só se poderia falar em tradução literal se houvesse línguas bastante semelhantes para
permitirem ao tradutor limitar-se a uma simples transposição de palavras ou expressões de
uma para outra. Mas línguas assim não há, nem mesmo entre os idiomas cognatos. As
inúmeras divergências estruturais existentes entre a língua do original e a tradução obrigam o
tradutor a escolher, de cada vez, entre duas ou mais soluções, e em sua escolha ele é inspirado
constantemente pelo espírito da língua para a qual traduz (1987: 21).
Por isso, nunca vai existir uma única tradução ideal de determinado texto. Haverá
muitas traduções boas, mas não a tradução boa de um original (Rónai, 1987: 23).
Essa idéia também já estava em Borges, pois para ele não existe tradução única.
Umberto Eco, por sua vez, observa que não é possível ser completamente “fiel”
porque ao traduzirmos, não dizemos nunca a mesma coisa, mas quase a mesma
coisa. Ademais, ao finalizar o seu livro Quase a mesma coisa: experiências de
tradução (2007), o autor italiano diz:
A conclamada “fidelidade” das traduções não é um critério que leva à única tradução aceitável
[...]. A fidelidade é, antes, a tendência a creditar que a tradução é sempre possível se o texto
fonte foi interpretada com apaixonada cumplicidade, é o empenho em identificar aquilo que,
para nós, é o sentido profundo do texto e é a capacidade de negociar a cada instante a solução
que nos parece mais justa (2007: 426).
18 http://www.cobra.pages.nom.br/fcp-stael.html
Eco vai além ao lembrar que se consultarmos qualquer dicionário, é
possível ver que “entre os sinônimos de fidelidade não está a palavra exatidão. Lá
estão antes lealdade, honestidade, respeito, piedade (2007: 426).
Após esta longa discussão sobre tradução interlingual e suas implicações,
passemos agora a estudar o último tipo de tradução, a chamada tradução
intersemiótica, formulado por Jakobson.
Tradução intersemiótica
Um dos campos mais promissores dos Estudos da Tradução é a tradução
intersemiótica. Ela pode ser definida, segundo Jakobson, como a transmutação de uma
obra de um sistema de signos a outro. A forma mais freqüente se dá entre um sistema
verbal e um não-verbal, como acontece com a passagem da ficção ao cinema, vídeo e
história em quadrinhos; com a ilustração de livros; com a passagem de texto a
publicidade. No entanto, ela pode acontecer também entre dois sistemas não-verbais,
como por exemplo, entre música e dança e música e pintura.
Na passagem de texto para outro sistema, temos o seguinte esquema:
texto de partida → intérprete → ícone de chegada
através de códigos diferentes, isto é
texto = imagem estática: desenho, foto, pintura
ou
texto = imagem animada através de vídeo, cinema
Para Rónai, a tradução intersemiótica é “aquela a que nos entregamos ao
procurarmos interpretar o significado de uma expressão fisionômica, um gesto, um ato
simbólico mesmo desacompanhado de palavras. É em virtude dessa tradução que uma
pessoa se ofende quando outra não lhe aperta a mão estendida ou se sente à vontade
quando lhe indicam uma cadeira ou lhe oferecem um cafezinho” (1976: 2). A
transposição intersemiótica é feita de um sistema de signo para outro, por exemplo, da
arte verbal para a música, a dança, o cinema ou a pintura. A semiótica19, para Jakobson,
está no centro da discussão sobre a tradução, pois esta é uma forma de interpretação de
signos. Leia mais sobre o assunto no www.cadernos.ufsc.br.
Assim como a tradução intra e interlingual, a tradução intersemiótica, de acordo
com Thais Nogueira Diniz, também procura,
por equivalentes, ou seja, a busca, em um determinado sistema semiótico, de elementos cuja
função se assemelhe à de elementos de outro sistema de signos. Entretanto, esse procedimento
ainda leva em conta a existência de um sentido no texto, que deve ser transportado/traduzido
para um outro texto/sistema, isto é, considera-se que o sentido (segundo os Novos Críticos)
seja imanente ao texto, provenha de sua estrutura. (Cadernos de Tradução VII).
Na tradução intersemiótica, mas também nos demais tipos de tradução discutidos
acima, não é possível traduzir tudo. Quando se pensa na passagem do verbal para o
visual como na adaptação para o cinema do romance Anna Kariênina, de Liev Tolstoi,
da peça Hamlet de William Shakespeare, do conto “Emma Zunz”, de Jorge Luis Borges
ou do poema “O padre e a moça”, de Carlos Drummond de Andrade, o
intérprete/tradutor precisa ter, desde o início, uma estratégia de tradução para
determinar quais são os componentes mais característicos do texto a ser traduzido entre
dois códigos diferentes, pois quando um dos textos de uma tradução não é verbal, a
seleção entre as partes que se traduzem e as que se sacrificam é muito mais evidente.
De fato, como afirma Osimo:
o tradutor intersemiótico, queira ou não, está sendo obrigado a dividir o texto original em
partes [...]: denotação/conotação, expressão/conteúdo, diálogos/descrições, referências
intertextuais/intratextuais etc. A seguir, deve desmontar tais partes do original, encontrar um
elemento traduzível em cada uma delas e voltar a montá-las, recriando a coerência e a coesão,
que, como já observamos, é a essência de um texto. In:
http://www.logos.it/pls/dictionary/linguistic_resources.traduzione_bp?lang=bp)
Ou, ainda segundo Thais Nogueira Diniz, “mesmo que se estabeleçam
equivalentes semânticos para os elementos de dois sistemas de signos diferentes, não se
pode abranger todas as nuances de cada um dos sistemas”, até porque, como já estudado
quando discutimos a tradução intralingual e interlingüísitica, não existe correspondência
total entre dois textos (sejam eles ou não de sistemas diferentes). Seguindo ainda este
raciocínio, Thais N. Diniz diz que “toda tradução irá, portanto, oferecer sempre algo
além ou aquém do chamado original, e o sucesso não dependerá apenas da criatividade
19 http://www.semiotic.com.br/conceito/semiotica.htm
nem da habilidade, mas das decisões tomadas pelo tradutor, seja sacrificando algo, ou
encontrando a todo custo um equivalente”. E prossegue “Se nos lembrarmos de que o
sentido é o resultado de uma interpretação, de uma leitura, e da função que o
texto/tradução terá para a audiência a que se destina, nunca poderemos avaliar uma
tradução com critérios de fidelidade” (Cadernos de Tradução VII In
www.cadernos.ufsc.br).
Se tomarmos como exemplo a adaptação de um texto literário para o cinema, o
intérprete/tradutor deve ter em mente que o texto literário utiliza a palavra enquanto um
filme adota outros recursos como a imagem, o som. Na realidade, trata-se do uso da
palavra escrita e da palavra pronunciada ou dos gestos, da música e das expressões no
cinema mudo. Para realizar a tradução fílmica de um texto verbal, vários elementos
estão presentes: o diálogo, a ambientação, a trilha sonora, a montagem, o
enquadramento, a iluminação, a cor, o plano, a perspectiva etc. Osimo diz que “para
realizar a tradução fílmica de um texto verbal, é imprescindível fazer uma subdivisão
racional do original para decidir quais elementos da composição fílmica são confiáveis
para tradução de determinados elementos estilísticos ou narratológicos do original”. (In
http://www.logos.it/pls/dictionary/linguistic_resources.traduzione_bp?lang=bp).
Exemplos de tradução intersemiótica não nos faltam. Pensemos na adaptação para
história em quadrinhos do romance Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust, do
livro de história e sociologia Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freire; adaptação para
o vídeo de crônicas de Nelson Rodrigues e Luis Fernando Veríssimo, do romance
Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa; adaptação para o teatro do romance
Macunaíma, de Mário de Andrade; adaptação para o balé de conto de fada “A bela
adormecida”, do romance Don Quijote, de Miguel de Cervantes ou dos poemas João
Cabral de Melo Neto musicados por Chico Buarque de Holanda.
Embora o ensaio de Roman Jakobson “Aspectos lingüísticos da tradução” seja
bastante abrangente e consiga abarcar boa parte dos tipos de tradução, há ainda outros,
como veremos a seguir.
Outros tipos de tradução
Vale ainda lembrar que há outros tipos de tradução como:
1) a tradução automática
2) a tradução simultânea e
3) a tradução consecutiva.
Nesta parte, vamos apenas tratar da tradução automática. A tradução simultânea e a
consecutiva vão ser discutidas com detalhes na unidade 3.
Por tradução automática entende-se a tradução feita por meios mecânicos, ou seja,
sem a intervenção direta de um ser humano. Quando surgiu, na década de 50 do século
XX, a tradução automática era feita através de programas elaborados para grandes
computadores mas, com a invenção do computador pessoal e o progressivo aumento de
sua capacidade e velocidade de processamento de dados, ela é feita através de
programas de software destinados a rodar nos computadores pessoais facilmente
acessíveis aos consumidores. Esses programas são especialmente desenhados para lidar
com certos pares de línguas, seja diretamente, seja através de uma língua intermediária.
Esses programas costumam ser oferecidos em duas versões atualmente: uma livre, e
mais limitada, que se pode copiar na internet e outra paga, com mais recursos,
destinadas, sobretudo a empresas.
Alguns desses programas conseguem um surpreendente grau de exatidão e rapidez,
sobretudo para textos técnicos e outros tipos textuais bem definidos, com sintaxe,
vocabulário e fraseologia bem definidos. Em textos mais híbridos e com grande
variedade vocabular, sintática e fraseológica, como os textos literários, de humor e de
publicidade, a eficácia desses programas é limitada, ainda quando, em sua maioria, eles
possam ser “programados” para lidar com dificuldades específicas. Os aspectos
polissêmicos20 do uso do vocabulário, as figuras de linguagem, os jogos de palavras e
outras complexidades normais nesses tipos de texto dificultam, ou tornam inócuo, o uso
da tradução automática. Veja um exemplo disso no seu DVD.
Na próxima unidade, vamos falar do papel do tradutor e do intérprete, que, para
Ewandro Magalhães Jr, quando transformados em verbos e ações traduzir e interpretar
se interpenetram (2007: 26).
20 Polissemia: Referente a polissemia; que tem mais de um significado.
FUNÇÕES DO TRADUTOR E DO INTÉRPRETE
Nesta parte, vamos abordar a distinção entre tradutor e intérprete, bem como das
particularidades e da importância de ambos para a comunicação através das definições
de Schleiermacher, Mounin, Paulo Rónai e de Maria Cristina Pereira.
A tradução oral, ou interpretação, existiu desde o início do surgimento das
línguas e do contato entre povos de línguas diferentes, desempenhando um papel
importante nas trocas comerciais e culturais, para não dizer na solução de problemas
bélicos e diplomáticos. Nos tempos modernos, com a chamada globalização, ocorre um
verdadeiro florescimento da interpretação com a multiplicação de colóquios e
congressos internacionais. Cabe recordar a diferenciação paulatina entre a figura do
intérprete e a do tradutor. Até o século XI, aproximadamente, era chamado intérprete
quem fazia tradução, tanto oral quanto escrita. A partir do século XII, começa-se a falar
de intérprete como aquele que faz tradução oral, ou seja interpretação, e de tradutor,
como aquele que faz tradução escrita.
O ponto comum é o trabalho com texto e com língua estrangeira, pois segundo
Melanie Metzger, “a tradução e a interpretação lidam com um determinado texto em
outra língua” (2002: 3).
O intérprete atua com a forma oral ou gestual e instantânea ou consecutiva de
tradução, já o tradutor, que trabalha com o texto escrito, sempre terá mais tempo para
consultar os instrumentos do ofício (dicionários, livros, internet etc), diferentemente do
intérprete. O intérprete, segundo Mounin “deve ser um orador e até mesmo um ator: um
virtuoso, um artista” (1965: 179).
Há dois tipos básicos de interpretação, que exigem do intérprete habilidades
específicas: a interpretação simultânea e a interpretação consecutiva. Na interpretação
simultânea, de acordo com Ewandro Magalhães Jr. “o intérprete vai repetindo na língua
de chegada cada palavra ou idéia apresentada pelo palestrante na língua de partida”
(2007: 44). Nesse caso, o intérprete deve ter uma memória excelente, rapidez de
intuição, além, obviamente, do conhecimento da língua e da cultura da qual traduz,
requisito fundamental para toda tradução. A tradução simultânea tem a vantagem de não
aumentar o tempo do evento mas exige recursos técnicos como uma cabine para o
intérprete e fones de ouvido para os assistentes. A tradução consecutiva, por sua vez,
não exige nenhum recurso tecnológico adicional. Nela, o intérprete escuta trechos do
texto a ser traduzido, eventualmente com o auxílio de notas, e em seguida produz um
texto em suas próprias palavras e que não segue necessariamente as frases do orador.
Segundo Ewandro Magalhães Jr. na tradução consecutiva “a pessoa que tem a palavra
faz pausas periódicas em sua fala, a fim de permitir que o intérprete faça o translado da
língua original (língua-fonte ou língua de partida) à língua dos ouvintes (língua-meta ou
língua de chegada)” (2007: 44).
Tanto na tradução simultânea quanto na consecutiva é freqüente que o texto a
traduzir seja colocado previamente à disposição do intérprete. Cabe assinalar, no
entanto, que muitas vezes o orador improvisa e se afasta do texto entregue ao intérprete.
Além disso, quando se fala em tradutor e intérprete, devemos ter em mente uma
outra discussão feita no século XIX por Friederich Schleiermacher no texto “Sobre os
diferentes métodos da tradução”, de 1813. Para o filósofo alemão, a tradução pode
acontecer dentro da própria língua ou de uma língua estrangeira para outra. Nesse caso,
aparecem, então, duas figuras distintas: o intérprete e o tradutor. O intérprete, para
Schleiermacher, atua no campo dos negócios (oral) e o tradutor no campo da ciência e
da arte (escrito). Ele observa, ainda, que a tradução de escritos narrativos e descritivos
pode ter também muito da função do intérprete, mas o tradutor se sobrepõe ao intérprete
quando chega ao seu ramo mais próprio, isto é, o poder de combinar livremente as
produções intelectuais da arte e da ciência com o espírito da língua, a forma de ver o
mundo e a matriz do estado da alma (2001: 29).
Na realidade, o filósofo alemão destaca a função do tradutor porque somente ele
(e não o intérprete), através da tradução (porque é escrita) de grandes textos clássicos da
literatura ocidental e oriental, mas também textos filosóficos e religiosos, vai ser capaz
de fortalecer (renovar, ampliar) a língua e a cultura nacional.
Embora Schleiermacher dê mais valor ao tradutor que ao intérprete por este estar
relacionado ao ramo dos negócios, que usa uma linguagem mais técnica e, por isso,
mais árida, mas também porque a língua oral não é registrada, sabe-se que o papel do
intérprete vai além e é uma atividade tão nobre quanto a do tradutor e uma das mais
antigas do mundo e sobre o qual vamos falar em seguida, mas antes vale lembrar que os
tradutores, figuras centrais no desenvolvimento das civilizações, sempre contribuíram
para a emergência, o enriquecimento e a promoção das línguas e literaturas nacionais,
para o despertar de uma consciência coletiva de grupos étnicos e lingüísticos, para
importar novas idéias e valores, além de colaborar para a preservação do patrimônio
cultural da humanidade. Nas palavras do irlandês Michael Cronin (apud Bassnett 2003:
2), o tradutor é também um viajante, alguém em viagem de uma fonte para outra.
Na tradução interlingual, como já visto, o tradutor e intépretes são figuras
centrais, pois responsáveis pelo desenvolvimento das civilizações, contribuindo sempre
para o surgimento, o enriquecimento e a promoção das línguas e literaturas nacionais,
para o despertar de uma consciência coletiva de grupos étnicos e lingüísticos, para
importar novas idéias e valores, além de colaborar para a preservação do patrimônio
cultural da humanidade. Essas contribuições podem estar associadas a nomes tão
heterogêneos, e de fama tão desigual, como Ulfila (evangelista dos godos), São Mesrop
Mashtots (inventor do alfabeto armênio e tradutor da Bíblia), São Jerônimo, William
Tyndale (primeiro inglês a traduzir a Bíblia diretamente das línguas originais), Martinho
Lutero e Jorge Luis Borges, entre muitíssimos outros.
E ainda no caso da tradução interlingual, como discute Paulo Rónai:
ao tradutor (e isso também vale para o intérprete) não lhe basta um conhecimento
aproximativo da língua do autor que está vertendo. Por melhor que maneje o seu próprio
instrumento, não pode deixar de conhecer a fundo o instrumento do autor. O tradutor deve
conhecer todas as minúcias semelhantes da língua de seu original a fim de captar, além do
conteúdo estritamente lógico, o tom exato, os efeitos indiretos, as intenções ocultas do
autor. Assim a fidelidade alcança-se muito menos pela tradução literal do que por uma
substituição contínua. A arte do tradutor consiste justamente em saber quando pode verter e
quando deve procurar equivalências. Mas como não há equivalências absolutas, uma
palavra, expressão ou frase do original podem ser freqüentemente transportadas de duas
maneiras, ou mais, sem que se possa dizer qual das duas é a melhor (1987: 22-3).
Embora os tradutores/intérpretes sempre tenham servido de elo na cadeia de
transmissão do conhecimento entre sociedades separadas por barreiras lingüísticas,
construindo pontes entre nações, raças, culturas e continentes, e entre o passado e o
presente, sabemos que eles foram, por muitos séculos, relegados a segundo plano,
desprezados e, em certas conjunturas, perseguidos. William Tyndale, por exemplo, foi
queimado foi queimado na fogueira em 1536 na Bélgica por suas traduções da Bíblia,
de inspiração protestante. E em pleno século XX o livro Os versos satânicos foi
considerado ofensivo ao islã e seu autor, Salman Rushdie recebeu uma sentença de
morte em fevereiro de 1989 por meio de uma fatwa (edito religioso) impetrada pelo
aiatolá21 Khomeini. O autor vive até hoje sob proteção da polícia ritânica, mas seus
tradutores sofreram represálias. Assim, o tradutor japonês Hitoshi Igarashi foi morto a
21 No Irã, título atribuído aos especialistas ou interpretadores xiitas da lei islâmica, e especialmente
àqueles de autoridade superior.
facadas nas ruas de Tóquio, em 1991, por um radical islâmico. Outro tradutor, o italiano
Ettore Capriolo, sobreviveu a um ataque em Milão. No entanto, o castigo mais comum
infligido a estes mediadores, sem os quais não existiria cultura mundial, tem sido o
silêncio. Ainda hoje é comum vermos, nos jornais e revistas, ou nos sites das editoras,
resenhas e anúncios de livros traduzidos em que não consta o nome do tradutor. Nas
palavras do teórico norte-americano da tradução Lawrence Venuti, os tradutores
costumam ser "invisíveis".
Tentativas de sanar esta lacuna têm sido feitas no âmbito internacional. Entre elas,
cabe destacar Os Tradutores na História, organizado por Jean Delisle e Judith
Woodsworth (Tradução de Sérgio Bath. São Paulo: Ática, 1998). Neste livro, ganha
relevo o tradutor como personagem importante, e às vezes decisivo, na história cultural
da humanidade. No Brasil, tem havido uma série de iniciativas para valorizar e
pesquisar o trabalho dos tradutores. A defesa dos direitos do tradutor, ainda tão pouco
reconhecidos aqui, tem sido a bandeira do Sintra22 (Sindicato Nacional dos Tradutores)
e da Abrates23 (Associação Brasileira dos Tradutores). Nos meios acadêmicos, a
Abrapt24 (Associação Brasileira dos Pesquisadores em Tradução) tem realizado
congressos e estimulado a investigação dos múltiplos aspectos do fenômeno tradutório.
Há iniciativas na UFSC de tornar o tradutor mais visível, como no projeto do dicionário
de tradutores literários25 ou ainda a revista Cadernos de Tradução, publicada desde
1996, que conta com uma seção dedicada aos tradutores.
Um tradutor literário que representa bem a categoria no Brasil é Paulo Henriques
Britto. Contrariamente à maioria dos tradutores profissionais, ele é bastante reconhecido
tanto por colegas como pelos editores. Paulo, que também é poeta e contista, representa
também os múltiplos cruzamentos que a atividade tradutória costuma ter, já que, além
de influenciar a cultura brasileira com suas traduções, ele também escreve poesia,
ficção e ensaio, além de ser professor na PUC-Rio. A entrevista abaixo, concedida a
Marlova Aseff e publicada no jornal Diário Catarinense, ilustra bem a relevância que o
trabalho do tradutor tem na cultura brasileira.
22 www.sintra.org.br
23 www.abrates.com.br
24 www.fflch.usp.br/sitesint/abrapt
25 http://www.dicionariodetradutores.ufsc.br
Pergunta - Fale um pouco da experiência de traduzir e mergulhar na vida de
Elizabeth Bishop.
Britto - Eu traduzi a sério, mesmo, três poetas: Wallace Stevens, Byron26 e Elizabeth
Bishop27. Foram os três projetos de tradução de poesia em que eu fui mais fundo. E dos
três, o que eu fui mais fundo foi o projeto da Bishop, porque eu não apenas fiz uma
antologia pegando quase metade do corpus da poesia dela, como também traduzi a prosa
e as cartas dela. Foi uma coisa que eu nunca tinha feito em minha vida, um projeto de
pesquisa sério. Quando eu percebi, estava me tornando um entendido em Elizabeth
Bishop. Fiquei mais ou menos seis anos imerso nesse projeto.
Pergunta - E quanto ao Byron?
Britto - Com Byron foi diferente. Traduzi apenas um poema dele, um poema longo,
mas que também me ocupou durante anos e me obrigou a ler a obra toda dele. Foi
também muito interessante. Mas foi uma iniciativa minha, que fiz nas horas vagas. No
caso da Bishop, foi interessante porque eu fui remunerado. A editora comprou o pacote
da obra completa dela para lançar no Brasil as cartas, a prosa e uma seleção das poesias
dela.
Pergunta - Você assimilou algo da poesia de Byron e de Bishop em sua criação?
Britto - Esses poetas em que eu mergulhei, todos deixaram uma certa marca. O Wallace
Stevens foi talvez o que deixou marcas mais fundas porque eu o li quando ainda estava
em formação. Descobri a poesia dele quando eu estava com 23, 24 anos e estava
escrevendo os poemas que saíram no meu primeiro livro, de 1982. Dele peguei duas
coisas importantes: um certo olhar filosófico, uma poesia muito pensante, de caráter
introspectivo, e uma coisa meio objetiva, liberta do eu, porque o Fernando Pessoa, que
foi minha leitura básica, reforçou um lado muito autocentrado, algo que todo
adolescente tem, de esmiuçar o eu. O que eu gostei do Stevens é que ele voltava seu
olhar filosófico para outras coisas, para o mundo, para a arte, para os objetos. Para mim,
isso foi muito bom porque me obrigou a sair um pouco do "eu".
Pergunta - Sua poesia fala do mundo, das coisas...
26 No site http://www.beatrix.pro.br/literatura/byron.htm você encontra informações sobre o autor inglês
Byron e a sua poesia romântica.
27 Conheça um pouco sobre Elizabeth Bishop no site http://www.uvm.edu/~sgutman/Bishop.html
Britto - Sim, e nisso o Byron foi fundamental para mim. Com ele aprendi duas coisas:
uma foi lidar com formas fixas de uma maneira mais disciplinada, a outra tem a ver com
a sua personalidade voltada para o "aqui e agora". O poema dele que traduzi tem um
fiapo de história, uma bobagem, mas cheia de digressões, que são o mais interessante.
Ele fala mal da Itália, da Inglaterra, dos amigos, dos inimigos. E essa coisa meio
superficial e dispersiva dele foi boa para me puxar para a realidade. Por outro lado, a
Bishop eu traduzi quando já estava com meu estilo poético já mais ou menos definido,
então o impacto da obra dela na minha poesia foi menor, mas ela trabalha muito bem
com a forma e reforçou isso em mim.
Pergunta - Como tradutor, você se preocupa em influenciar o ambiente cultural?
Britto - Uma das coisas que me levaram a traduzir o Byron foi a idéia de que a poesia
brasileira estava precisando de um banho de objetividade. Eu não agüentava mais essa
coisa de poema sobre o poema, poema sobre a leitura, sobre a impossibilidade de
escrever poemas. Essas coisas cansam, caem numa certa esterilidade. Fiquei
impressionado com o fato de o Byron fazer poesia e estar ligado no mundo. Isso me
interessava na medida em que a poesia estava se descolando do resto do mundo.
Pergunta - E o que você busca quando traduz prosa?
Britto - Eu busco todas aquelas coisas que tradicionalmente todos os tradutores buscam,
por mais que os teóricos esperneiem. Busco uma tradução fiel ao original, busco recriar
em português os efeitos estilísticos do original e tento, na medida do possível, me tornar
transparente ou invisível, colocando o mínimo de mim nos livros que traduzo. O lugar
para eu me colocar como tradutor é o paratexto, a introdução, as notas, o posfácio28.E o
lugar para eu me afirmar como escritor é a minha poesia. No momento em que estou
traduzindo, estou interessado em recriar em português, da melhor maneira possível, o
que eu acho que sejam os valores estéticos do original. É a mesma coisa que eu faço na
tradução de poesia. A única vantagem de trabalhar com poesia é que tudo é muito
concentrado. Num textinho de 10 ou 15 versos, os problemas são muito mais críticos. O
texto poético tem inúmeros níveis, mais do que a prosa mais refinada. Mas tudo que
estou propondo para a avaliação de poesia pode, mutatis mutandis, ser aplicado na
prosa.
28 Advertência posta no fim de um livro.
Como visto, Paulo Henriques Britto é um tradutor do inglês para o português e trabalha
apenas com as línguas vocais, por isso, abaixo, segue entrevista com Heloise Gripp,
tradutora do português para a Língua Brasileira de Sinais.
1. Como nasceu o seu interesse pela tradução?
A tradução sempre esteve presente na minha vida, traduzindo a sinalização dos meus
pais surdos para a escrita da língua portuguesa ao nos comunicar com pessoas ouvintes
nos lugares públicos. Já me chamaram para traduzir para surdos com pouco
conhecimento de LIBRAS de forma de tradução intralingual nas associações de surdos e
quanto à tradução interlingual tenho pouco conhecimento em outra língua de sinais
americana e também a língua de sinais internacional.
Por outro lado profissional, o meu interesse começou por necessidade de ser mediadora
da transmissão dos conhecimentos da língua portuguesa para pessoas surdas na vida
escolar e profissional deles.
2. Desde quando você traduz?
Profissionalmente, há uns nove anos.
3. Como você aprendeu a traduzir?
Sempre traduzindo para minha família na comunicação com as pessoas ouvintes como
cartas, bilhetes, papel no diálogo... E aos 12 anos de idade, aprendi a distinguir as duas
línguas: língua portuguesa e Libras nos momentos diferentes na leitura e escrita, pois
neste momento fui traduzir um texto pausadamente em português sinalizado, ora
olhando para o texto e ora sinalizando para meu pai que não entendeu e fui interpretar
novamente em Libras, que ele logo entendeu. Percebi que há grande diferença entre
português sinalizado e Libras.
Foi a partir daí, que comecei a trabalhar na tradução, sob ponto de vista cultural e
lingüística ao interpretar da língua portuguesa para Libras, não somente uso de sinais,
também o uso das expressões faciais gramaticais e afetivas, os olhares, o espaço da
sinalização, a posição de uso dos sinais diante da câmera ou do público.
E aprofundei aprendendo as técnicas de tradução ao trabalhar na tradução das historias
para Libras em vídeos e DVD’s com a equipe de profissionais surdos nas historias
clássicas em Libras, mais especificamente diferença entre narração e dramatização sob
aspectos gramaticais em Libras.
4. Que tipos de textos você traduz (técnicos, literários)?
Textos literários: histórias da Literatura infantil: contos e fábulas, Hino Nacional,
historias clássicas de Literatura Brasileira: de Machado de Assis e de José de Alencar;
Textos didáticos: livros didáticos da Cartilha de Alfabetização e do Ensino
Fundamental;
Textos científicos: disciplinas do curso de licenciatura de Letras/Libras.
5. Quais são as maiores dificuldades de traduzir do português para Libras?
Por estas línguas serem de modalidade diferente: a língua portuguesa da modalidade
oral-auditiva e a língua de sinais da modalidade viso-espacial. E também têm suas
próprias regras gramaticais, e não um jeito de traduzir uma palavra por um sinal e sim
pela leitura das estruturas sintáticas, dependendo dos níveis lingüísticos principalmente
a semântica e a pragmática como o uso de metáforas, provérbios que há necessidade de
tradução cultural, assim como as metáforas de Libras para português.
Por falar da tradução cultural, há partes que são respeitadas ao traduzir de modo cultural
e viso-espacial, por exemplo, diálogos, as produções sonoras, cumprimentos entre as
pessoas, toque de companhia (som), para diálogos construídos pelo narrador, as
produções visuais e manuais e toque de companhia (luz) e entre outros.
Você também faz traduções de Libras para português?
Sim.
6. Você consegue viver da tradução?
Se for apenas de tradução, não. É uma forma complementar ao meu emprego fixo.
7. Quais livros você traduziu? Qual o mais difícil e por quê?
Os livros citados acima. O mais difícil foi a história Iracema, escrita pelo José de
Alencar por ser do século 19 e das estruturas sintáticas e verbais da gramática
tradicional e uso das palavras arcaicas.
8. Você conhece teoria da tradução? Você acha que a teoria ajuda a traduzir
melhor?
Tenho conhecimento apenas alguns aspectos teóricos da tradução como tradução literal,
tradução cultural e tradução livre. Aprendi mais sobre as teorias da tradução e seus
autores como Jakobson através do curso de licenciatura de Letras/Libras.
Sim, com certeza.
9. Quais são os seus conselhos para quem quer entrar nessa profissão?
Que tenham o conhecimento sobre as teorias de tradução e as técnicas de tradução,
principalmente a tradução cultural para atingir a compreensão na língua-alvo para os
interlocutores com clareza, respeitando sob fatores sociais como idade, classe social,
escolaridade. Trabalhar com a maior concentração e discernimento nas línguas de
modalidades diferentes e no momento de traduzir de português para Libras, assim
evitando o português sinalizado.
Depois dessas duas entrevistas, vale reproduzir a definição de Bruno Osimo
dado ao tradutor, mas também pode ser aplicada ao intérprete. Segundo Osimo:
O tradutor é um animal social, porque traduzir é comunicar. É também um animal cultural
se, como temos visto, a tradução é feita de uma cultura para outra. Neste sentido, quem
pertence a uma comunidade, entendida como núcleo social em sua acepção mais ampla, e
deve tratar com pessoas que não pertencem a tal comunidade, vê-se obrigado a traduzir para
poder comunicar-se a partir de dentro com o exterior do grupo social. Em toda comunidade
a comunicação é baseada em uma altíssima percentagem de elementos que se dão por
adquiridos, em torno dos quais esta se produz. (In
http://www.logos.it/pls/dictionary/linguistic_resources.cap_1_39?lang=bp)
Além do tradutor, um papel particularmente importante ao longo da história, como
já visto, é também o dos intérpretes, especialmente em alguns momentos-chave da
história mundial. Georges Mounin afirma que
a tradução diplomática, pela sua utilidade prática, existe há mais de quatro milênios. Os
tratados de paz criavam a exigência de tradutores já em épocas em que as religiões eram
propriedade de uma única comunidade ética, e não se exportavam. Apenas com o
desenvolvimento das religiões universais, a tradução religiosa se torna o mais importante
gênero de tradução (1965: 129).
Em “O intérprete: de "mal necessário" a "salvador da pátria" (In
http://www.sintra.org.br), Raffaella de Filippis Quental diz que muitas vezes o
intérprete é considerado um “mal necessário” porque “seria muito melhor não precisar
de intermediários e estabelecer um canal de comunicação direto com a outra parte”. Já
para Ewandro Magalhães Jr., ao falar sobre o papel do intérprete na tradução
simultânea, mas que pode ser aplicado a qualquer intérprete, ela é “mágica. Vista de
perto, parece loucura. O intérprete tem que ouvir e falar ao mesmo tempo, repetindo em
outra língua palavras e idéias que não são suas, sem perder de vista o conteúdo, a
intenção, o sentido, o ritmo e o tom da mensagem transmitida por seu intermédio”
(2007: 19).
No caso mais próximo do interesse dos alunos de Libras, Maria Cristina Pires
Pereira em “Interpretação intrelíngüe: as especificidades da interpretação de língua de
sinais” (2008), discute a questão do intérprete de língua de sinais (ILS), isto é, nas
palavras da autora, este “artigo traz reflexões sobre o bilingüismo profissional de
pessoas que atuam, basicamente, com a interpretação (mediação) interlíngüe entre a
Libras e a língua portuguesa brasileira e suas diferenças e similitudes com os intérpretes
de línguas vocais”.
Maria Cristina observa que:
a tradução é o termo geral que se refere a transformar um texto a partir uma língua fonte, por meio
de vocalização, escrita ou sinalização, em outra língua meta. A diferenciação é feita, em um nível
posterior de especialização, quando se considera a modalidade da língua para qual está sendo
transformado o texto. Se a língua meta estiver na modalidade escrita trata-se de uma tradução; se
estiver na modalidade vocal (também chamada de oral) ou sinalizada (presenciais ou de interação
imediata), o termo utilizado é interpretação.
Ainda de acordo com Maria Cristina:
Ser intérprete é ser, intrinsecamente, um profissional atormentado por ter que estar presente
e fingir-se invisível, algo ainda mais impensável para um intérprete de uma língua que é
percebida prioritariamente pelo canal visual, como uma língua de sinais; e por não poder
ser o ‘eu’ nem o ‘tu’ plenamente, por estar sempre em uma posição instável e escorregadia
de um simbiótico locutor-interlocutor. Estes conflitos são maximizados por estereótipos dos
quais é difícil nos livrarmos, tais como o velho e surrado traduttori,tradittori, que coloca a
profissão sob permanente desconfiança, pois se algo vai mal no ato de linguagem, o
primeiro a ser apontado como culpado é o intérprete. Em obras que tratam das pessoas
surdas e em que é necessária a interpretação de língua de sinais, esta desconfiança também
é demonstrada.
Se a interpretação é uma das mais antigas atividades e não se pode precisar
quando esta atividade começou, a atividade de intérprete no meio surdo surge, segundo
Maria Cristina, no meio familiar e, aos poucos, “foi se estendendo aos professores de
crianças surdas e ao âmbito religioso. Com o passar do tempo, o fortalecimento dos
movimentos sociais e políticos das comunidades surdas e o reconhecimento legal das
línguas de sinais surgiu, finalmente, o ILS profissional”.
A função intérprete ganha particular relevo porque, de acordo com Stumpf, “os
surdos podem, através do intérprete, compreender e ser compreendidos, e os ouvintes,
são colocados no mesmo nível, precisam também do intérprete ou de aprender uma
língua que não é a sua língua natural” (2005: 26).
E ainda lembra Maria Cristina que:
Apesar das pessoas surdas serem a meta principal da interpretação de
língua de sinais, é importante lembrar que, de um certo modo, também
somos intérpretes de língua vocal porque interpretamos da língua de sinais
para a língua portuguesa e vice-versa. Intermediamos as interações entre
pessoas surdas e pessoas ouvintes, e que ambas precisam de qualidade no
serviço de interpretação que recebem. [...] Um agente tão presente na
garantia dos direitos das pessoas surdas, com tarefas tão, ou mais,
complexas do que os intérpretes de línguas vocais, merece ser tirado do
obscurantismo e ser alvo de, cada vez mais, estudos acadêmicos.
Depois dessa discussão sobre o intérprete nas línguas vocais e sinalizadas, abaixo
segue entrevista com a autora do artigo acima mencionado e intérprete de Libras Maria
Cristina Pires Pereira.
Desde quando você trabalha como intérprete?
Especificamente, como intérprete, desde 1998. Antes disto, fiz alguns trabalhos,
como tradutora, esporadicamente, pois também possuo a formação, no ensino
médio, de Técnica Tradutora e Intérprete.
1. Quais as dificuldades da sua profissão?
Falta de conhecimento e reconhecimento nos meios acadêmicos e legais,
principalmente. A representação das pessoas surdas, no imaginário social, ainda, em
sua maioria, é de pessoas incompletas e defeituosas o que, conseqüentemente,
acarreta um viés caritativo à nossa profissão. Não é incomum que dos intérpretes de
língua de sinais seja exigido o trabalho voluntário e sem direitos trabalhistas
(pausas, revezamento entre os intérpretes, etc.) em nome de "ajudar aos surdos",
"amor aos surdos".
2. Você acha que a teoria de tradução ajuda na profissão de intérprete?
A contribuição que a teoria da tradução pode dar à tradução e interpretação de
língua de sinais é inestimável. E vice-versa, pois nós, intérpretes de língua de sinais,
carecemos de uma formação embasada teoricamente. Muito de nosso conhecimento
é construído unicamente sobre base empírica. Ao mesmo tempo, um olhar da teoria
da tradução também sobre a intermediação lingüística entre línguas de diferentes
modalidades pode auxiliar a expandir a área de abrangência dos conceitos atuais
voltados, quase que exclusivamente, para as línguas vocais.
3. Que conselhos você daria para quem está entrando nesta profissão?
Em primeiro lugar, procurar desenvolver, ao seu máximo, a proficiência lingüística
nas nossas línguas de trabalho: a língua portuguesa e a Libras. Sensibilizar-se
culturalmente para as comunidades a que atendemos, pois língua e cultura estão
ligadas de forma interdependente. Desenvolver e manter autodisciplina, autocontrole
e autogerenciamento, pois, em geral, trabalhamos muito sós. E, claro, manter uma
postura profissional, acima de tudo.
4. A atividade de intérprete nas línguas vocais é uma profissão bem
remunerada. E no caso do intérprete de línguas sinalizadas?
Pelo que o SINTRA (sindicato dos tradutores) recomenda, a tradução nas línguas
vocais é uma profissão razoavelmente remunerada, especialmente se a compararmos
aos intérpretes de línguas de sinais. Para se ter uma idéia, no Rio Grande do Sul, ao
menos, um/a intérprete recebe por 20h de trabalho, em uma instituição de ensino
superior, em média 600 reais por mês!
5. Quais são os requisitos básicos para se tornar um bom intérprete de
Libras?
Proficiência ótima em língua portuguesa e na Libras, atitude profissional e
autonomia.
6. Como estão os estudos sobre interpretação de Língua de Sinais no Brasil?
Incipientes. Muitos poucos estudos existem nesta área, a maioria enfoca a
interpretação educacional e nem sempre com um olhar sobre a interpretação e
sim sobre os alunos surdos.
7. Você já teve algum problema insolúvel de tradução enquanto intérprete?
Sim. Fui agendada para interpretar uma prova de Carteira Nacional de Habilitação e
na hora da prova percebi que o rapaz simplesmente não conhecia nem a língua
portuguesa, nem a Libras. Além de insolúvel foi muito frustrante ver um homem de
mais de 30 anos de idade que morava na Grande Porto Alegre e, pior, tinha, de
alguma forma, freqüentado as aulas teóricas, ter sido levado a uma situação extrema,
exatamente na prova. A impressão que me causou foi de que os professores o
ignoraram ou o aprovaram sem nenhuma reflexão. Um ser humano que precisava
somente de uma língua para se desenvolver foi, literalmente, imbecilizado por
ignorância ou, talvez, preconceito de seus cuidadores quando era criança. Foi uma
situação muito estressante! E não é incomum...
CONCLUSÃO
Ainda hoje, quando se pensa em tradução, apesar de o assunto ser objeto de um
número crescente de pesquisas acadêmicas e de ser ensinada em diferentes disciplinas
do currículo, tanto em graduação como em pós-graduação, é comum que ela seja
considera como um simples ato mecânico. Na realidade, como se viu anteriormente, as
coisas se passam de maneira diferente, pois em qualquer tipo de tradução as palavras
não possuem sentido isoladamente, mas dentro de um contexto e por estarem dentro
deste contexto. Ela pode, portanto, ser considerada, uma quinta habilidade, como as
outras de: ler, escrever, escutar, interpretar.
A tradução também pode ser considerada uma atividade paradoxal por excelência.
Aliás, como afirmou José Ortega y Gasset em “Esplendor y Miseria de la Traducción”
(Obras, Madrid, Espasa-Calpe, 1943), a tradução interlingual, é em princípio
impossível. Pois, se lemos num texto brasileiro a palavra "floresta", logo pensamos na
floresta amazônica, num mundo de vegetação luxuriante e diversificada, ou nas
queimadas que a devastam atualmente, enquanto um alemão, quando lê wald, vê
mentalmente uma floresta européia, regular e uniforme, com as árvores mais agrupadas
por espécies. Mas, impossível em princípio, a tradução tem de ser feita. E Ortega y
Gasset afirma então que tudo o que o homem realiza de grande situa-se no campo do
impossível.
Como se pode perceber, a complexidade permeia os três tipos de tradução. Traduzir,
seja dentro da mesma língua, entre línguas ou entre sistemas semióticos, é uma tarefa
que exige interpretação, escolhas, leitura atenta e a bibliografia acerca deste assunto é
extensa. Em um sentido mais amplo, Osimo argumenta que “traduzir equivale a
racionalizar ou, segundo Umberto Eco, “negociar”, aliás esta é a tese principal do livro
Quase a mesma coisa – experiências de tradução. E negociar deve ser entendido, para
o escritor italiano, como um processo com base no qual renuncia-se a alguma coisa para
obter outra. Se o original contém alguns elementos ambíguos ou polissêmicos, tradutor
deve, em primeiro lugar, lê-los, identificá-los, interpretá-los e, a seguir, traduzir o
traduzível de uma maneira racional. Aliás, isso é o deveria ocorrer em qualquer tipo de
tradução.
E se para Torop a tradução pode ser considerada qualquer tipo de compreensão, para
Susan Sontag, “tradução diz respeito a diferenças. Um modo de enfrentar, aprimorar e,
sim, negar a diferença – mesmo se for também um modo de afirmar diferenças” (2005:
432), pois a finalidade da tradução é sempre “ser resgatado da morte ou da extinção” (p.
433). Essa também é a idéia de Derrida em Torres de Babel, isto é, da tradução
assegurar a sobrevivência de um texto. Ademais, devemos ter em mente que para os três
tipos de tradução propostos por Jakobson (intralingual, interlingual e intersemiótico), as
possibilidades de traduções são múltiplas e diferentes, pois não existe tradução única.
Podemos concluir que a multiplicidade das traduções, junto com a melhoria progressiva
de sua qualidade, pode contribuir para que o patrimônio cultural acumulado esteja ao
alcance do público, porque como observaram Octavio Paz e Derrida, a tradução está no
centro da atividade humana e é responsável pelo avanço das civilizações.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Bassnett, Susan. Estudos da tradução. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2003.
Tradução de Vivina de Campos Figueiredo
Borges, Jorge Luis. Obras completas. Buenos Aires: Emecé, 1976.
Campos, Haroldo de. Metalinguagem e outras metas. São Paulo: Perspectiva, 2004.
Eco, Umberto. Quase a mesma coisa. Experiências de tradução. Rio de Janeiro/São
Paulo: Record, 2007. Tradução de Eliana Aguiar.
Magalhães Jr., Ewandro. Sua majestade, o intérprete – o fascinante mundo da tradução
simultânea. São Paulo: Parábola Editorial, 2007.
Metzger, Melanie. Sign Language Interpreting. Deconstructing the Myth of Neutrality.
Washingtom: Gallaudet University Press, 2002.
Mounin, Georges. Os problemas teóricos da tradução. São Paulo: Cultrix, 1965.
Tradução de Heloysa de Lima Dantas.
Munday, Jeremy. Introducing Translation Studies. London/New York: Routledge,2001.
Schleiermacher, Friedrich. “Sobre os diferentes métodos de tradução”. Tradução de
Margarete von Mühlen Poll. In: Clássicos da teoria da tradução – vol. 1: alemãoportuguês.
Florianópolis: UFSC, 2001, p. 26-87.
Pereira, Maria Cristina Pires. “Interpretação intrelíngüe: as especificidades da
interpretação de língua de sinais” In Cadernos de Tradução XXI, 2008/1, no prelo.
Rónai, Paulo. A tradução vivida. Rio de Janeiro: EDUCOM, 1976.
Sontag, Susan. Questão de ênfase. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. Tradução
de Rubens Figueiredo.
Steiner, George. Depois de Babel: questões de linguagem e tradução. Curitiba: Editora
UFPR, 2005, pp. 533. Tradução de Carlos Alberto Faraco.